Diz-se que os anjos voam. Carlos de Oliveira

Diz-se que os anjos voam
doutro modo; leves;
que não levam peso
quando partem:
a nossa miséria já filtrada,
a sua misericórdia imponderável;
flutuam; pairam; vogam:
verbos de pouca densidade;
cânones vigiaram
o crescimento das asas
nas pinturas heréticas;
concílios redigiram normas
a impor asas mais breves:
para que voem; ut volent;
basta a sua essência aérea;
e assim, nenhum anjo sofreu
as leis reais do nosso peso; nem pôde,

por isso, conhecer-nos.

Carlos de Oliveira, Entre Duas Memórias

Por mais que nos doa a vida. Carlos de Oliveira

Por mais que nos doa a vida
nunca se perca a esperança;
a falta de confiança
só da morte é conhecida.
Se a lágrimas for cumprida
a sorte, sentindo-a bem,
vereis que todo o mal vem
achar remédio na vida.
E pois que outro preço tem
depois do mal a bonança,
nunca se perca a esperança
enquanto a morte não vem.

 

Carlos de Oliveira, Poesias

Gare. António Feijó

O comboio perdeu-se no negrume

da noite e da distância.

A leva dos emigrantes

– num sonho de riqueza

e na esperança de vida –

enchera o monstro.

Na gare, choros e gritos!

Namoradas perdidas,

mães velhinhas

E os amigos,

numa espécie de inveja dolorida,

por não poderem partir.

Na gare a dor em cada face!

E só eu

– que não era um emigrante –

só eu tive um sorriso de mulher

pedindo que voltasse

Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

Sílabas. António Ramos Rosa

Sílabas.

O álcool de Dezembro é frio e rouco.

O cigarro amarga. É um cigarro clínico.

Sílabas.

Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.

Uma colher é uma forma complexa

familiar e deliciosa.

Um copo é nítido

como um criado sem servilismo.

Uma mulher condensa-se

no olhar do poeta.

Um corpo. Duas sílabas.

O dinheiro à justa. A gola da gabardina

para tapar a nuca

e os ouvidos.

Sílabas.

 

António Ramos Rosa

de Viagem Através de Uma Nebulosa em Obra Poética Vol. I

Se eu fosse a ti amava-me. Juan Vicente Piqueras

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.
Juan Vicente Piqueras

Aprendiendo. Jorge Luís Borges

después de un tiempo,
uno aprende la sutil diferencia
entre sostener una mano
y encadenar un alma,
y uno aprende
que el amor no significa acostarse
y una compañía no significa seguridad
y uno empieza a aprender…
que los besos no son contratos
y los regalos no son promesas
y uno empieza a aceptar sus derrotas
con la cabeza alta y los ojos abiertos
y uno aprende a construir
todos sus caminos en el hoy,
porque el terreno del mañana
es demasiado inseguro para planes…
y los futuros tienen una forma de caerse
en la mitad.
y después de un tiempo
uno aprende que si es demasiado,
hasta el calorcito del sol quema.
así que uno planta su propio jardín
y decora su propia alma,
en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.
y uno aprende que realmente puede aguantar,
que uno realmente es fuerte,
que uno realmente vale,
y uno aprende y aprende…
y con cada día uno aprende.
Jorge Luis Borges