Delfos (II). João Pedro Mésseder

A arte
da memória
se compõe

do canto
obstinado
das cigarras

do prumo
branco
das colinas

do fruto
ainda verde
do cipreste

De um Caderno Grego, Edições Plenilúnio, Porto, 2003.

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Apensar. Carlos Bessa

Eu vou pensar. Ah, estúpido.
Pensar, não se pensa em português.
Em francês, sim. Ou, quem sabe,
em alemão. De resto,
pensar é bom se houver
um pouco de Ricoeur, Derrida
ou será de angina de peito?

Está bem, não penso.
Cito-te. Dou-te a mão.
Afinal, tu é que sabes,
que orientas,
que espalhas a vaidade
e a razão.

Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

(imagem Jeannette Woitzik aqui)

Vista para um pátio. José Miguel Silva

Cai um sino do pinheiro de natal.

Por muito menos se foge de casa

de seus pais. Agachados sob o leque

das hortênsias, descobrimos que as lágrimas

são fáceis de engolir. Sem saber,

já chegamos ao escuro.

Só nos falta pôr o til na palavra solidão.

 

josé miguel silva

vista para um pátio seguido de desordem

relógio d´água, 2003

Outras coisas. Manuel António Pina

Outras coisas  no entanto

o amor e o desamor e também a

morte que nas coisas morre subitamente

o lugar onde vais de súbito

De súbito faltas-me debaixo dos pés

e noutros lugares  De ti é possível dizer

que te ausentaste para parte incerta

deixando tudo no teu lugar

Está tudo na mesma  Também a mim

tempo não me falta lugar sim

Onde cairás morta, flor da infância?

De súbito faltam-me as palavras

manuel antónio pina

O tempo que faz. Luis Filipe Parrado

Os velhos sentam-se neste banco

a avaliar o tempo que faz encostados a uma empena

escura, mais antiga do que eles. Também eu,

escondido na sombra, deixei para trás

a luz das dunas. A visão pinta com cores cegas

o lugar onde a alegria se desfez, uma história

de águas perdidas no coração da terra.

O fim de um amor é como um sonho.

Ainda hoje o fumo dos cigarros me sabe

melhor pelo sopro da manhã

depois de um sono sereno. As limalhas radiantes

no túnel mostram como se cai no limbo negro do horizonte,

no rio espesso após o crepúsculo.

Sim, soube tarde de mais o que podia dizer

da minha vida, com a boca fechada por correntes

e trapos estava simplesmente morto.

Como os velhos que continuam sentados neste banco

acordo a tempo de comprar algum pão

e varrer do passado o teu rosto, uma promessa estilhaçada,

um grão de juventude que me guia com uma pequena luz

que só no vento destas palavras se mantém.

 

luís filipe parrado

Tenho Mais Almas que Uma. Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Ricardo Reis, in “Odes”

Segue o teu destino. Ricardo Reis

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in “Odes”

(heterónimo de Fernando Pessoa)