Identidade, Miguel Torga

farol

Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga

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Neo-Bucólica. Inês Lourenço


Que bem luzem nos discursos
da boa consciência
onanista e nos poemas light dos
neo-bucólicos as casinhas
com papás, vovós e manos, talvez
com uma sentida perda
de um talher à mesa e uma
horta, couves, alfaces, a doméstica
economia dos quintalórios
com um cão cativo a ladrar
à sina e à honestidade das batatas
que as mães ou avós ainda esmagam
na sopa com uns pingos de azeite e
enfado. Pequeno país do
gasóleo e do futebol, memórias
de mercados e feiras buliçosas,
de escolinhas rústicas, agora desertas,
com a cruz e os presidentes na parede,
pequeno país de bravia
palavra, sofrida crueza
de mato ardido e estrumes, sucatas,
detritos, o hábito endurecido dos
pequenos holocaustos
diários.

Inês Lourenço. “Logros Consentidos”.
Lisboa, &Etc, 2005, p. 19

Fingir que está tudo bem. José Luís Peixoto

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto, in ‘A Criança em Ruínas’

No obscuro desejo. Vasco Graça Moura

no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

Vasco Graça Moura

in Antologia dos Sessenta Anos, ASA, 2002

Firmamento. Luís Quintais

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Uma multidão de que te alheias.
Vozes sobrepostas
destroem o sentido

e a tua inclinação por ideias de ordem
desvia-te para um lugar escuro, silente
(assim o pressentes),

uma sala do lado esquerdo,
ao fundo, onde ninguém está.
Em rigor há uma luz dispersa,

uma atmosfera de encanto e morte.
Um espelho espreita.
Os circunstantes degladiando-se

num arremesso de vozes.
Estão nele, são espreitados.
Sonhas a armadilha que o voluntário

espelho revela. O tempo
suspende-se
sob o efeito de um sortilégio.

Nessa sala onde a obscuridade
não é total (os olhos vêem mais
depois da atenção),

a multidão a teu lado, sitiando-te,
é engolida pela perseguição
geométrica.

Antecedes o momento
em que o mundo acaba
e uma fúria de vitorioso esquecimento

apaga os despojos
das irredutíveis vozes
e a imagem do teu rosto

perseguindo o jogo perseguidor.

Duelo, Edições Cotovia, 2004

Cedros dos Himalaias. Luis Quintais

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São vários os conceitos que me movem.
Um gesto abstracto desfila na imaginação:
sobre o azul, os cedros dos Himalaias.

É este o jardim de tarde que procuro.
Um lugar de intensa luz que cegue rotinas,
repetidos esquemas de pensamento.

A mesma luz até à renovada frase.
Transportem-se cedros dos Himalaias
pela imaginação adentro,

e a imensa realidade tornar-se-á
desabitável, desabituável,
repleta de conceitos que nos movam.

Luis Quintais, Umbria, 1999

 

Os Lusíadas. João de Deus

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Os Lusíadas estão como na hora!
Três séculos e nada,
Nem uma letra única apagada!
Porque a gente decora,
E nem os vermes comem
Não traçam, não consomem
Uma obra inspirada,
Suma-se o vulto, que a compôs, embora.
Os dons da Divindade
― A beleza, a verdade,
Essa glória de Deus como do homem ―
Raiam e ficam em perene aurora!

João de Deus, Campo de Flores, 1893.