Categoria: Fernando Assis Pacheco

Um Campo Batido pela Brisa. Fernando Assis Pacheco

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A tua nudez inquieta-me.

 

Há dias em que a tua nudez

é como um barco subitamente entrado pela barra.

Como um temporal. Ou como

certas palavras ainda não inventadas,

certas posições na guitarra

que o tocador não conhecia.

 

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo

para um lado misterioso e frágil.

Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe

contorno, peso. Destrói o meu corpo.

A tua nudez é uma violência

suave, um campo batido pela brisa

no mês de Janeiro quando sobem as flores

pelo ventre da terra fecundada.

 

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas

com o vocabulário da tua nudez.

Tenho «um pensamento despido»;

maturação; altas combustões.

De mão dada contigo entro por mim dentro

como em outros tempos na piscina

os leprosos cheios de esperança.

E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete

que lanço com mão tremente desastrada

para rebentar e encher a minha carne

de transparência.

 

Sete dias ao longo da semana,

trinta dias enquanto dura um mês

eu ando corajoso e sem disfarce,

iluminado, certo, harmonioso.

E outras vezes sucede que estou: inquieto.

Frágil.

Violentado.

 

Para que eu me construa de novo

a tua nudez bascula-me os alicerces.

 

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

Com a tua letra. Fernando Assis Pacheco

emaranhados

Fala-se de amor para falar de muitas coisas
que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Fernando Assis Pacheco

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