Liberdade. Miguel Torga

Kestrel_by katholbird_Flickr

Liberdade, que estais no céu…

Rezava o padre-nosso que sabia,

A pedir-te, humildemente,

O pio de cada dia.

Mas a tua bondade omnipotente

Nem me ouvia.

 

Liberdade, que estais na terra…

E a minha voz crescia

De emoção.

Mas um silêncio triste sepultava

A fé que ressumava

Da oração.

 

Até que um dia, corajosamente,

Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

Saborear, enfim,

O pão da minha fome.

Liberdade, que estais em mim,

Santificado seja o vosso nome.

 

Miguel Torga

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2 thoughts on “Liberdade. Miguel Torga

  1. POEMARMA
    Manuel Alegre

    Que o poema tenha rodas motores alavancas
    que seja máquina espectáculo cinema.
    Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
    Que seja um autocarro em forma de poema.

    Que o poema cante no cimo das chaminés
    que se levante e faça o pino em cada praça
    que diga quem eu sou e quem tu és
    que não seja só mais um que passa.

    Que o poema esprema a gema do seu tema
    e seja apenas um teorema com dois braços.
    Que o poema invente um novo estratagema
    para escapar a quem lhe segue os passos.

    Que o poema corra salte pule
    que seja pulga e faça cócegas ao burguês
    que o poema se vista subversivo de ganga azul
    e vá explicar numa parede alguns porquês.

    Que o poema se meta nos anúncios das cidades
    que seja seta sinalização radar
    que o poema cante em todas as idades
    (que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

    Que o poema seja microfone e fale
    uma noite destas de repente às três e tal
    para que a lua estoire e o sono estale
    e a gente acorde finalmente em Portugal.

    Que o poema seja encontro onde era despedida.
    Que participe. Comunique. E destrua
    para sempre a distância entre a arte e a vida.
    Que salte do papel para a página da rua.

    Que seja experimentado muito mais que experimental
    que tenha ideias sim mas também pernas.
    E até se partir uma não faz mal:
    antes de muletas que de asas eternas.

    Que o poema assalte esta desordem ordenada
    que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
    Que faça ginástica militar aplicada
    e não vá como vão todos para França.

    Que o poema fique. E que ficando se aplique
    a não criar barriga a não usar chinelos.
    Que o poema seja um novo Infante Henrique
    voltado para dentro. E sem castelos.

    Que o poema vista de domingo cada dia
    e atire foguetes para dentro do quotidiano.
    Que o poema vista a prosa de poesia
    ao menos uma vez em cada ano.

    Que o poema faça um poeta de cada
    funcionário já farto de funcionar.
    Ah que de novo acorde no lusíada
    a saudade do novo, o desejo de achar.

    E que o poema diga: o longe é aqui
    e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
    Ah que o poema chegue ao pé de ti
    e te diga ao ouvido o que é preciso.

    Que o poema actue directamente sobre o real
    nem que por vezes seja só o poeta em movimento.
    Ah que o poema para ser original
    transforme em braços e acção o pensamento.

    Que ponha sinos a tocar dentro das rosas
    e seja mais que rosa flor de cacto.
    Que o poema saiba ver dentro das coisas
    a mão do homem feita poema em acto.

    Que o poema me dispa de tudo o que não presta
    e me transforme na sua própria acção.
    Nem quero outra glória nem quero outra festa:
    morrer como Guevara na Bolívia da canção.

    Só tu, povo fardado de ganga azul
    poderás dar-me a glória ou recusar-ma.
    Aí vai o meu poema
    a minha taça do rei de tule
    aí vai para ser arma!

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