Categoria: Paul Aster

Desaparecimentos. Paul Auster

IMG_3505

 

1

 

De pura solidão, ele recomeça ─

 

como se fosse a última vez

que respirasse,

 

e é por isso agora

 

que pela primeira vez respira

para além do alcance

do singular.

 

Está vivo, e ele não é senão por isso

o que se afoga no insondável poço

do seu olho,

 

e o que ele vê

é tudo o que ele não é: a cidade

 

da indecifrável

ocorrência,

 

e logo a língua das pedras,

pois ele sabe que por toda a vida

uma pedra

dará lugar a outra pedra

para fazer uma parede

 

e que estas pedras todas

farão a soma monstruosa

 

da singularidade.

 

 

Paul Auster

poemas escolhidos

tradução de rui lage

quasi

2002

Eixos. Paul Aster

Polyommatus icarus_Max Dodema

Ver é estoutra aflição, expiada
Na dor de ser visto: o dito,
O visto, contidos na recusa
De falar, e de uma só voz a semente,
Sepultada no acaso de uma pedra.
Nunca as minhas mentiras me pertenceram.

paul auster
poemas escolhidos
quasi
2002

Clandestino, Paul Aster

amazing 01
Recordem hoje comigo – a palavra
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono.

Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vierem privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.

Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.

Paul Auster

(«Poemas Escolhidos», tradução de Rui Lage, Quasi)