Categoria: Fiama Hasse Pais Brandão

Fui criança, indo por um carreiro. Fiama Hasse Pais Brandão

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Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água

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Epístola para Dédalo. Fiama Hasse Pais Brandão

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Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.


Fiama Hasse Pais Brandão, Epístolas e Memorandos (1996)

A minha vida, a mais hermética. Fiama Hasse Pais Brandão

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Este amor literal, o pormenor dos lábios, a aproximação

da consciência é a situação mais nítida sobre a profundidade dos gritos.

Sobre a colina tradicional, sendo a tradição um único

momento, estou na mesma situação de Blake e na situação

de mim mesma quando ouvia o infinito no grito das crianças

e quando era evidente. Porém não terminava o crepúsculo, nem os jogos

se estavam a tornar obscuros, nem junto à casa aparecera

a fisionomia da imagem

de mãe. Nada se opõe, tudo difere, este sistema simbólico

inclui os gritos, com mais numerosas referências.

 

Tudo o que disse com literalidade deverá parecer,

agora, o aviso de que a minha vida é a mais hermética.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

Da terra. Fiama Hasse Pais Brandão

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Amar o mar completa a minha vida

com o tacto de um amor imenso.

Amar ateia a margem

arrebata-me de júbilo e paixão.

Mas veio o vento e, por momentos,

amargurou o meu corpo, o oscilar.

E está o sol aqui, depois de uns dias

de jardim obscurecido, a beber sombra.

E sei que os átomos zumbem

e dançam como os insectos

ébrios em redor do pólen.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

as fábulas

quasi

2002

Na casa antiga, cada um de nós levava | Fiama Hasse Pais Brandão

CandeeiroPetroleo

Na casa antiga, cada um de nós levava
consigo um candeeiro, com que arrastava
o seu duplo de penumbra e de sombra.
A chama do petróleo ardia junto à boca,
podíamos devorar a própria luz.
Chamas nos queimavam as entranhas
e em archotes vivos nos tornaram,
vagueando por corredores e por escadas
atrás do Outro, que nada nos dizia.

Fiama Hasse Pais Brandão

Foto d’aqui