Categoria: Rainer Maria Rilke

O homem que contempla. Rainer Maria Rilke

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in “O Livro das Imagens”
Tradução de Maria João Costa Pereira

Foto montra Lisboa

Que fazes tu, poeta? Rainer Maria Rilke

via wood is good

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

E o que nome não tem, tu podes tanto

Que o possas nomear, poeta? — Canto.

De onde te vem o direito ao Vero, enquanto

Usas de máscaras, roupagens? — Canto.

E o que é violento e o que é silente encanto,

Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

Rainer Maria Rilke in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

Esférico, Rainer Maria Rilke

Esférico, que no teu voo não cessas de oferecer
o calor de duas mãos com indiferença.
O que nos objectos não pode permanecer,
demasiado pesado para eles, pouco mas suficiente,

para que não possa, de repente,
deslizar em nós, invisível, a tudo o que lá fora
se alinha, em ti desliza, entre queda e voo,
indecisa. Elevas-te primeiro como se

o tivesses levado contigo, arrebatado,
e libertado, depois inclinas-te e ficas suspensa—
e lá do alto mostras, de súbito,
aos jogadores uma nova jogada,
dispondo-os, como se fossem figuras dum bailado,

para logo a seguir, desejada e esperada por todos,
rápida, simples, natural, sem pesar
voltares a cair nas mãos que se elevam no ar.

Rainer Maria Rilke