Categoria: Almada Negreiros

O livro. Almada Negreiros

844b590854c2539705234bee6a2027bf.jpg

Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para
ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.
* * * * *
Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que trata
da vida; era justamente do que eu necessitava–pôr sciencia na minha
vida.
Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.
Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só
tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem
e semelhança de Deus. Não basta?
* * * * *

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como
ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos,
não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha
hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia.
Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
a morada e o dia.
* * * * *
Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome,
cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar
sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.

Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber
cuidar de si é ser cão.

Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me
ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono
de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele
soube cuidar de si!
* * * * *

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se
diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma
arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos,
só de uma peça: Um homem!
* * * * *
Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar
e nenhuma era para copiar.

Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio
o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei
com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.

Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são
como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não
se confundir…
* * * * *
Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.

* * * * *
Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
* * * * *
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
estavam todas escritas, só faltava uma coisa–salvar a humanidade.

–O pequeno é como o grande.
–O que está em cima é analogo ao que está em baixo.
–O interior é como o exterior das coisas.
–Tudo está em tudo.

José de Almada Negreiros, A invenção do dia claro

Anúncios

Momento de Poesia. Almada Negreiros

capa_temas_almada_img_02.jpg

Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Almada Negreiros, Escrito em 14 de Dezembro de 1941.

Reconhecimento à loucura. Almada Negreiros

e5bb80d6a4fac43dbda337a71ec6e332

Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto do Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira para tudo?
Tu só loucura és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar

 a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

Esperança. Almada Negreiros

tumblr_m0mij58DDe1qefrmxo1_500

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Encontro. Almada Negreiros

IMG_0545
 A Carlos Queiroz
 
Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá prò futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
Almada Negreiros

Encontro. Almada Negreiros

IMG_4089

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

 

Almada Negreiros

A sombra sou eu. Almada Negreiros

Mobile mirrors_Lilibeth Cuenca Ramussen

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros