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Sá Carneiro. Fernando Pessoa

                Nesse número do Orpheu que há-de ser feito

                Com rosas e estrelas em um mundo novo.

 

Nunca supus que isto que chamam morte

Tivesse qualquer espécie de sentido…

Cada um de nós, aqui aparecido,

Onde manda a lei e a falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem

Entre um comboio e outro, entroncamento

Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;

Mas, seja como for, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso

Seguisses, e adiante do em que vou;

No términus de tudo, ao fim lá estou

Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda

Grandes acolhimentos se darão

Para cada prolixo coração

Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.

Há almas pares, as que conheceram

Onde os seres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós

Éramos como um diálogo numa alma.

Não sei se dormes […] calma,

Sei que, falho de ti, estou um a sós.

É como se esperasse eternamente

A tua vida certa e conhecida

Aí em baixo, no café Arcada —

Quase no extremo deste […]

Aí onde escreveste aqueles versos

Do trapézio, doriu-nos […]

Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».

Ah, meu maior amigo, nunca mais

Na paisagem sepulta desta vida

Encontrarei uma alma tão querida

Às coisas que em meu ser são as reais.

[…]

Não mais, não mais, e desde que saíste

Desta prisão fechada que é o mundo,

Meu coração é inerte e infecundo

E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos

Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,

Um desejo de termos companhia —

O amigo como esse que a falar amamos.

1934
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Um poema. Maria do Rosário Pedreira

 

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Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

 

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde – uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.

 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal

poema aqui

imagem aqui

No silêncio da terra. António Ramos Rosa

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No silêncio da terra. Onde ser é estar.

A sombra se inclina.

Habito dentro da grande pedra de água e sol.

Respiro sem o saber, respiro a terra.

Um intervalo de suavidade ardente e longa.

Sem adormecer no sono verde.

Afundo-me, sereno,

flor ou folha sobre folha abrindo-se,

respirando-me, flectindo-me

no interior aberto.

Não sei se principio.

Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo

da água ou da terra,

o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre

ou a lisa permanência clara,

abandono igual ao puro ombro

em que nada se diz

e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa

do abrigo simples,

lúcido, unido, silencioso umbigo

do ar.

o teu corpo

renasce

à flor da terra.

Tudo principia.

 

antónio ramos rosa

vagabundagem na poesia de antónio ramos rosa

seguido de uma antologia

casimiro de brito

quasi

2001

trazido daqui

imagem daqui

Elegia múltipla. Herberto Helder

Capturar

III

 

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.

O orvalho da muita manhã.

Corria de noite, como no meio da alegria,

pelo orvalho parado da noite.

Luzia no orvalho. Levava uma flecha

pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado

loucamente

por um caçador de que nada sabia.

E era pelo orvalho dentro.

Brilhava.

 

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse

assim na morte,

batendo nas ervas extasiadas por uma morte

tão bela.

Porque as ervas têm pálpebras abertas

sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.

De dia. De noite.

A sua cara batia nas candeias.

Batia nas coisas gerais da manhã.

Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.

Tomava alegria no pensamento

do orvalho. Corria.

 

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.

Que têm os olhos cegos como sangue.

Este corria assombrado.

Os mortos devem ser puros.

Ouvi dizer que respiram.

Correm pelo orvalho dentro, e depois

estendem-se. Ajudam os vivos.

São doces equivalências, luzes, ideias puras.

Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

 

– a morte é passar, como rompendo uma palavra,

através da porta,

para uma nova palavra. E vejo

o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição

através das portas de outros corpos.

Como uma qualidade ardente de uma coisa para

outra coisa, como os dedos passam fogo

à criação inteira, e o pensamento

pára e escurece

 

– como no meio do orvalho o amor é total.

Havia um homem que ficou deitado

com uma flecha na fantasia.

A sua água era antiga. Estava

tão morto que vivia unicamente.

Dentro dele batiam as portas, e ele corria

pelas portas dentro, de dia, de noite.

Passava para todos os corpos.

Como em alegria, batia nos olhos das ervas

Que fixam estas coisa puras.

Renascia.

 

herberto helder

poesia toda

a colher na boca

assírio & alvim

1996

(trazido d’aqui)

Imagem Adriana Varajão

Os Homens Ocos. T. S. Elliot