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Um poema. Maria do Rosário Pedreira

 

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Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

 

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde – uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.

 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal

poema aqui

imagem aqui

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No silêncio da terra. António Ramos Rosa

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No silêncio da terra. Onde ser é estar.

A sombra se inclina.

Habito dentro da grande pedra de água e sol.

Respiro sem o saber, respiro a terra.

Um intervalo de suavidade ardente e longa.

Sem adormecer no sono verde.

Afundo-me, sereno,

flor ou folha sobre folha abrindo-se,

respirando-me, flectindo-me

no interior aberto.

Não sei se principio.

Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo

da água ou da terra,

o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre

ou a lisa permanência clara,

abandono igual ao puro ombro

em que nada se diz

e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa

do abrigo simples,

lúcido, unido, silencioso umbigo

do ar.

o teu corpo

renasce

à flor da terra.

Tudo principia.

 

antónio ramos rosa

vagabundagem na poesia de antónio ramos rosa

seguido de uma antologia

casimiro de brito

quasi

2001

trazido daqui

imagem daqui

Elegia múltipla. Herberto Helder

Capturar

III

 

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.

O orvalho da muita manhã.

Corria de noite, como no meio da alegria,

pelo orvalho parado da noite.

Luzia no orvalho. Levava uma flecha

pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado

loucamente

por um caçador de que nada sabia.

E era pelo orvalho dentro.

Brilhava.

 

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse

assim na morte,

batendo nas ervas extasiadas por uma morte

tão bela.

Porque as ervas têm pálpebras abertas

sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.

De dia. De noite.

A sua cara batia nas candeias.

Batia nas coisas gerais da manhã.

Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.

Tomava alegria no pensamento

do orvalho. Corria.

 

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.

Que têm os olhos cegos como sangue.

Este corria assombrado.

Os mortos devem ser puros.

Ouvi dizer que respiram.

Correm pelo orvalho dentro, e depois

estendem-se. Ajudam os vivos.

São doces equivalências, luzes, ideias puras.

Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

 

– a morte é passar, como rompendo uma palavra,

através da porta,

para uma nova palavra. E vejo

o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição

através das portas de outros corpos.

Como uma qualidade ardente de uma coisa para

outra coisa, como os dedos passam fogo

à criação inteira, e o pensamento

pára e escurece

 

– como no meio do orvalho o amor é total.

Havia um homem que ficou deitado

com uma flecha na fantasia.

A sua água era antiga. Estava

tão morto que vivia unicamente.

Dentro dele batiam as portas, e ele corria

pelas portas dentro, de dia, de noite.

Passava para todos os corpos.

Como em alegria, batia nos olhos das ervas

Que fixam estas coisa puras.

Renascia.

 

herberto helder

poesia toda

a colher na boca

assírio & alvim

1996

(trazido d’aqui)

Imagem Adriana Varajão

Os Homens Ocos. T. S. Elliot

Faz-me o favor. M. Cesariny


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

                          de "O Virgem Negra" por M. C. V. 
                          (Mário Cesariny).

Queda prohibido. Alfredo Cuervo

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¿Qué es lo verdaderamente importante?
Busco en mi interior la respuesta,
y me es tan difícil de encontrar.

Falsas ideas invaden mi mente,
acostumbrada a enmascarar lo que no entiende,
aturdida en un mundo de falsas ilusiones,
donde la vanidad, el miedo, la riqueza,
la violencia, el odio, la indiferencia,
se convierten en adorados héroes.

Me preguntas cómo se puede ser feliz,
cómo entre tanta mentira se puede vivir,
es cada uno quien se tiene que responder,
aunque para mí, aquí, ahora y para siempre:

Queda prohibido llorar sin aprender,
levantarme un día sin saber qué hacer,
tener miedo a mis recuerdos,
sentirme sólo alguna vez.

Queda prohibido no sonreír a los problemas,
no luchar por lo que quiero,
abandonarlo todo por tener miedo,
no convertir en realidad mis sueños.

Queda prohibido no demostrarte mi amor,
hacer que pagues mis dudas y mi mal humor,
inventarme cosas que nunca ocurrieron,
recordarte sólo cuando no te tengo.

Queda prohibido dejar a mis amigos,
no intentar comprender lo que vivimos,
llamarles sólo cuando les necesito,
no ver que también nosotros somos distintos.

Queda prohibido no ser yo ante la gente,
fingir ante las personas que no me importan,
hacerme el gracioso con tal de que me recuerden,
olvidar a toda la gente que me quiere.

Queda prohibido no hacer las cosas por mí mismo,
no creer en mi dios y hacer mi destino,
tener miedo a la vida y a sus castigos,
no vivir cada día como si fuera un último suspiro.

Queda prohibido echarte de menos sin alegrarme,
olvidar los momentos que me hicieron quererte,
todo porque nuestros caminos han dejado de abrazarse,
olvidar nuestro pasado y pagarlo con nuestro presente.

Queda prohibido no intentar comprender a las personas,
pensar que sus vidas valen más que la mía,
no saber que cada uno tiene su camino y su dicha,
pensar que con su falta el mundo se termina.

Queda prohibido no crear mi historia,
dejar de dar las gracias a mi familia por mi vida,
no tener un momento para la gente que me necesita,
no comprender que lo que la vida nos da, también nos lo quita.

Alfredo Cuervo Barrero

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