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Faz-me o favor. M. Cesariny


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

                          de "O Virgem Negra" por M. C. V. 
                          (Mário Cesariny).
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Queda prohibido. Alfredo Cuervo

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¿Qué es lo verdaderamente importante?
Busco en mi interior la respuesta,
y me es tan difícil de encontrar.

Falsas ideas invaden mi mente,
acostumbrada a enmascarar lo que no entiende,
aturdida en un mundo de falsas ilusiones,
donde la vanidad, el miedo, la riqueza,
la violencia, el odio, la indiferencia,
se convierten en adorados héroes.

Me preguntas cómo se puede ser feliz,
cómo entre tanta mentira se puede vivir,
es cada uno quien se tiene que responder,
aunque para mí, aquí, ahora y para siempre:

Queda prohibido llorar sin aprender,
levantarme un día sin saber qué hacer,
tener miedo a mis recuerdos,
sentirme sólo alguna vez.

Queda prohibido no sonreír a los problemas,
no luchar por lo que quiero,
abandonarlo todo por tener miedo,
no convertir en realidad mis sueños.

Queda prohibido no demostrarte mi amor,
hacer que pagues mis dudas y mi mal humor,
inventarme cosas que nunca ocurrieron,
recordarte sólo cuando no te tengo.

Queda prohibido dejar a mis amigos,
no intentar comprender lo que vivimos,
llamarles sólo cuando les necesito,
no ver que también nosotros somos distintos.

Queda prohibido no ser yo ante la gente,
fingir ante las personas que no me importan,
hacerme el gracioso con tal de que me recuerden,
olvidar a toda la gente que me quiere.

Queda prohibido no hacer las cosas por mí mismo,
no creer en mi dios y hacer mi destino,
tener miedo a la vida y a sus castigos,
no vivir cada día como si fuera un último suspiro.

Queda prohibido echarte de menos sin alegrarme,
olvidar los momentos que me hicieron quererte,
todo porque nuestros caminos han dejado de abrazarse,
olvidar nuestro pasado y pagarlo con nuestro presente.

Queda prohibido no intentar comprender a las personas,
pensar que sus vidas valen más que la mía,
no saber que cada uno tiene su camino y su dicha,
pensar que con su falta el mundo se termina.

Queda prohibido no crear mi historia,
dejar de dar las gracias a mi familia por mi vida,
no tener un momento para la gente que me necesita,
no comprender que lo que la vida nos da, también nos lo quita.

Alfredo Cuervo Barrero

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E tudo era possível. Ruy Belo

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Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

“E tudo era possivel”,
Primavera, Homem de Palavra[s]
Ruy Belo

A Vida Responsável. Amalia Bautista

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Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para fazer só coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.

amalia bautista
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água

Regret. Jon Loomis

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Elvis won’t eat. He’s twenty years old. Mostly he sleeps,
staggers off to the litter-box, drags himself aback–

fur like a thrift-store suit, rumpled, bagged at the knees.
You’ve been avoiding the trip to the vet–the news will be bad.

For Christ’s sake, your wife says, on the third day.
I can’t stand it. So you grab an old sweater, wrap up

the shivering cat, put sweater and cat in a cardboard box.
He hates the car, still has enough chi left to yowl the whole way–

he knows where he’s going, knows he’s not coming back.
The office is bright, toxic with Lysol, sharp funk of animal fear.

You hold the box on your lap. Elvis papoosed in your sweater,
panting, eyes dull. Whatever love is, it’s not what you feel

for this cat–sprayer, shredder of chairs, backhanded gift
from a breakup–your ex moved in with her girlfriend,

no pets allowed. Two seats down a woman shushes
her mutt: it yaps at the end of its leash. Then it’s your turn.

Good night, old boy, the vet says. The needle slips in.
Elvis sighs, his flat skull in your hand. He purrs for a second

or two and then stops. You can’t love what you don’t love;
you try to be kind. But the sweater is Brooks Brothers,

cashmere. You’ve had it since grad school–it’s black,
and still fits. Not really thinking, you lift the dead cat,

unwrap the sweater, lay the lank purse of bones
back in its box. You leave him there at the vet’s-

no little backyard service for you. You drive home.
Your wife says, That’s it? and you nod.

There’s not much that keeps you awake anymore:
the future all rumor and smoke, a bus that never comes

until it comes–the past already published, out of your hands.
So what do you do with it, then? Shoved into the closet,

moth-reamed, way in the back. Crouched in its dark corner:
the thing that still fits. The thing you can’t throw away.

Jon Loomis

(Foto IP7, perto de Portalegre)

Ética. Luis Quintais

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Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
Luís Quintais
in «Lamento», 1999

Gosto-te. Joaquim Pessoa.

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Gosto-te. E desta certeza se abre a manhã como uma

imensa rosa de desejo indestrutível. O futuro é o pró-
ximo minuto, o que está para além da infatigável religi-
ão dos meus versos, em cuja luz me acendo, feliz e nu.

O meu sorriso conhece a bondade dos animais, o po-
der frágil das corolas, e repete o nome feminino dos ar-
canjos de peitos redondos, perfumados pelas giestas
das veredas do céu.

Gosto-te. Amarrado pelos meus braços de beduíno do
sol, pobre senhor dos desertos, profeta da distância
que há dentro das palavras, onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla da mais inquieta
serenidade.

Gosto-te. E tenho sido feliz por nunca ter seguido os
trilhos que me quiseram destinar. Aqui e ali me pergun-
to, despudoradamente. E sei que não sei mentir. É por
isso, que recolho na face a luz imprescindível ao orgu-
lho dos peixes e dos frutos.

Gosto-te. “Na-na-na, na-ô… Na-na-na, na-ô… na nô”,
canta o espírito do caminho, canta para mim e canta pa-
ra ti, eleva o coração das árvores grandes, coração de
coragem e de sangue fresco e verde, apaixonado e do-
ce, de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe” é agora uma palavra húmida, grá-
vida de água, onde os sinos da erva tocam para convocar
o imenso amor das sílabas. E, ao procurar-te, tremo ape-
nas de ternura, para que nem mesmo a inteligente brisa
da tarde possa dar pela minha presença.
Mais discreto que isto é impossível.

Joaquim Pessoa