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Regret. Jon Loomis

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Elvis won’t eat. He’s twenty years old. Mostly he sleeps,
staggers off to the litter-box, drags himself aback–

fur like a thrift-store suit, rumpled, bagged at the knees.
You’ve been avoiding the trip to the vet–the news will be bad.

For Christ’s sake, your wife says, on the third day.
I can’t stand it. So you grab an old sweater, wrap up

the shivering cat, put sweater and cat in a cardboard box.
He hates the car, still has enough chi left to yowl the whole way–

he knows where he’s going, knows he’s not coming back.
The office is bright, toxic with Lysol, sharp funk of animal fear.

You hold the box on your lap. Elvis papoosed in your sweater,
panting, eyes dull. Whatever love is, it’s not what you feel

for this cat–sprayer, shredder of chairs, backhanded gift
from a breakup–your ex moved in with her girlfriend,

no pets allowed. Two seats down a woman shushes
her mutt: it yaps at the end of its leash. Then it’s your turn.

Good night, old boy, the vet says. The needle slips in.
Elvis sighs, his flat skull in your hand. He purrs for a second

or two and then stops. You can’t love what you don’t love;
you try to be kind. But the sweater is Brooks Brothers,

cashmere. You’ve had it since grad school–it’s black,
and still fits. Not really thinking, you lift the dead cat,

unwrap the sweater, lay the lank purse of bones
back in its box. You leave him there at the vet’s-

no little backyard service for you. You drive home.
Your wife says, That’s it? and you nod.

There’s not much that keeps you awake anymore:
the future all rumor and smoke, a bus that never comes

until it comes–the past already published, out of your hands.
So what do you do with it, then? Shoved into the closet,

moth-reamed, way in the back. Crouched in its dark corner:
the thing that still fits. The thing you can’t throw away.

Jon Loomis

(Foto IP7, perto de Portalegre)

Ética. Luis Quintais

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Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
Luís Quintais
in «Lamento», 1999

Gosto-te. Joaquim Pessoa.

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Gosto-te. E desta certeza se abre a manhã como uma

imensa rosa de desejo indestrutível. O futuro é o pró-
ximo minuto, o que está para além da infatigável religi-
ão dos meus versos, em cuja luz me acendo, feliz e nu.

O meu sorriso conhece a bondade dos animais, o po-
der frágil das corolas, e repete o nome feminino dos ar-
canjos de peitos redondos, perfumados pelas giestas
das veredas do céu.

Gosto-te. Amarrado pelos meus braços de beduíno do
sol, pobre senhor dos desertos, profeta da distância
que há dentro das palavras, onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla da mais inquieta
serenidade.

Gosto-te. E tenho sido feliz por nunca ter seguido os
trilhos que me quiseram destinar. Aqui e ali me pergun-
to, despudoradamente. E sei que não sei mentir. É por
isso, que recolho na face a luz imprescindível ao orgu-
lho dos peixes e dos frutos.

Gosto-te. “Na-na-na, na-ô… Na-na-na, na-ô… na nô”,
canta o espírito do caminho, canta para mim e canta pa-
ra ti, eleva o coração das árvores grandes, coração de
coragem e de sangue fresco e verde, apaixonado e do-
ce, de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe” é agora uma palavra húmida, grá-
vida de água, onde os sinos da erva tocam para convocar
o imenso amor das sílabas. E, ao procurar-te, tremo ape-
nas de ternura, para que nem mesmo a inteligente brisa
da tarde possa dar pela minha presença.
Mais discreto que isto é impossível.

Joaquim Pessoa

Sol de mendigo. Manuel da Fonseca

 

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Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira…

Pela manhã acorda tonto de luz
vai ao povoado e grita:
– Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios rosnam:
– Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o chão
dorme, dorme….

Manuel da Fonseca

Sabedoria. Francisco José Viegas

amazing-736888_1280-copiegostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto

Francisco José Viegas

A origem do mundo. Nuno Júdice.

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De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.

Nuno Júdice, in “Meditação sobre Ruínas”

Mea culpa. Antero de Quental

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Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existencia hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda…
É minha mãe… Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza…
É de crer que só eu seja o culpado!

Antero de Quental, in “Sonetos”