Categoria: Valter Hugo Mãe

poema para… Valter Hugo Mãe

Ivo Vaessen_Ghiannis Shipwreck 2007

poema para um corpo
deitado em cama larga
a chamar por mim

1
persegue-me à toa. nunca
pares para pensar.

2
esquece as ruas. os teus
caminhos estão em
mim.

3
abre os olhos como o postigo
de um pequeno e delicado esconderijo, e
deixa o vento entrar.

4
recolhe o riso e fragrância terna
das flores na primavera. afasta
os lábios em pétalas vermelhas de
paixão. deixa-me roubar-te esse húmido pólen.

5
deixa que a sede se
sacie à tona dos teus olhos, onde
pretendo cegar.

6
desenlaço o corpo do teu e
demoro longo tempo a
perceber os meus contornos, assim
como a estátua demora a
esquecer a forma desfigurada
da pedra que lhe deu origem.

7
se te alheares, visito-te por
dentro de mim e juro
não acordar enquanto
não vieres pedir desculpa.

8
fico só, sabendo
que todos os objectos têm a
forma do teu corpo, e
todos os sons se reconduzem
à tua voz. não deambulo
pela casa – excessiva de ti – fujo-lhe
na ausência de movimento e
no desejo de ficar absolutamente
só. lembro-me de como não gostas
de me ver chorar.

valter hugo mãe

 

Vou buscar-te ao fim da tarde. Valter Hugo Mãe

põr do sol 5

vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim

valter hugo mãe

Burocracia do fim de uma longa amizade. Valter Hugo Mãe

wave of refreshment by ja5on

serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade
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VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

O desgoverno dos sonhos. Valter Hugo Mãe

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ao luís miguel nava

já não te aguardo,
adio-me

sobre o veludo da tua
morte e o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar

se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono

o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer

existe uma arritmia ténue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem

eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que
recua

e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro

a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir

e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecánica

critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão

por isso persigo o pôr do sol
janelas abertas e
vacilo

lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto

já tu me esperas,
abrevias-me

valter hugo mãe. folclore íntimo

O sapo pouco encantado. Valter Hugo Mãe

copo e landscape

nos armários da cozinha os
livros misturam-se com as facas, o
machado, as ratoeiras e os venenos, as
cartas, o óleo e o azeite, algumas velhas
latas de atum. nas gavetas da cozinha, à pressa,
passa a minha vida, como um tempo todo agora
urgente a terminar

costuro à noite quando o silêncio menos
se importa com os incautos. choro noite
inteira, cortando-me entre as pernas e
sangrando sobre os tecidos e estou sempre
na cozinha, ao pé dos objectos mais dentados, os
que conhecem a pele

capaz ainda de te amar,
vou ser um imbecil se publicar este poema
para te dizer que estou no filho da puta do mesmo
lugar de sempre à tua espera. passo nisto
os anos

emigra de si quem o coração perdeu. vivo longe

admito, sou um sapo pouco encantado, se
beijado torno-me um parvinho amoroso, mas
nunca um príncipe à antiga para uma
felicidade duradoura. garanto, quando muito,
competência, mas o romantismo tem de bastar-se
às platónicas formas da minha aflita alma, essa
coisa pequenina que me habita e que as
facas não cortam

Valter Hugo Mãe
contabilidade. primeiro livro. o inimigo cá dentro (2011)