Categoria: A.M. Pires Cabral

VI. A. M. Pires Cabral

E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.
Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
– e eu a defendê-lo a golpes de riso.
Como o melro, tal e qual.
A. M. Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º 11,
Lisboa, Averno, Novembro de 2008
(foto daqui)

Não me mostres nenhum norte. A. M. Pires Cabral

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.
Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.
Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.
A. M. Pires Cabral, Cobra-d’água,
Lisboa: Cotovia, 2011

Defeito de Fabrico. A.M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

A. M. Pires Cabral, in ‘Cobra-d’Água’

O vento. A.M. Pires Cabral

É fácil dizer que o vento

tem gatos na voz

enfurecidos.

 

Que afaga e despenteia,

traz a chuva.

 

Que levanta as telhas,

exercita na noite

os nossos mais pesados

pesadelos.

 

É fácil ser poeta

à custa do vento.

 

Fingir que não sabemos

que o vento não é senão

o vazio que muda de lugar.

A.M. Pires Cabral, in Arado, ed. Cotovia

No planeta inamistoso. A.M.Pires Cabral

No planeta inamistoso,
de aridez sem fim,
a morte declarada
da parte menos estável,
menos dócil de mim.

 

Igualado silêncio com ruído.
Unido o tempo
pelas extremidades.

 

Aprendo porém que a mesma serra
que me segreda as leis universais
também segrega pedra

 

e com outra mão
esculpe catedrais.

 

A. M. Pires Cabral

Defeito de Fabrico. A.M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

A. M. Pires Cabral, in ‘Cobra-d’Água’