Categoria: A.M. Pires Cabral

Defeito de Fabrico. A.M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

A. M. Pires Cabral, in ‘Cobra-d’Água’

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O vento. A.M. Pires Cabral

É fácil dizer que o vento

tem gatos na voz

enfurecidos.

 

Que afaga e despenteia,

traz a chuva.

 

Que levanta as telhas,

exercita na noite

os nossos mais pesados

pesadelos.

 

É fácil ser poeta

à custa do vento.

 

Fingir que não sabemos

que o vento não é senão

o vazio que muda de lugar.

A.M. Pires Cabral, in Arado, ed. Cotovia

No planeta inamistoso. A.M.Pires Cabral

No planeta inamistoso,
de aridez sem fim,
a morte declarada
da parte menos estável,
menos dócil de mim.

 

Igualado silêncio com ruído.
Unido o tempo
pelas extremidades.

 

Aprendo porém que a mesma serra
que me segreda as leis universais
também segrega pedra

 

e com outra mão
esculpe catedrais.

 

A. M. Pires Cabral

Defeito de Fabrico. A.M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

A. M. Pires Cabral, in ‘Cobra-d’Água’