Categoria: Daniel Jonas

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias. Daniel Jonas

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Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

chegaríamos a iguais resultados

pelo que de nada adianta imaginar um almagesto

ou tabelas de paralaxe para isto

a que convencionalmente chamamos amor,

nem calcular o ângulo

entre nós e o centro da terra,

de nada nos aproveitara, tu e eu

centros escorraçados de irregular gravitação.
Porém, isso não me impediu de ver plêiades

cada vez que surgias (só

não te dizia nada) plêiades iluminando

meu Hades

com suas cabrinhas coruscantes

pascendo

o vale da sombra da morte.
E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?

quando o melancólico transístor

destila também outras perguntas, mas nenhuma

tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência

a subir em tubos estreitos

ao contrário do mercúrio?

Isto é view-master e são coisas que faço

na tua ausência.

 

Daniel Jonas

Os fantasmas inquilinos, Livros Cotovia, 2005

Velho mestre. Daniel Jonas

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O silêncio
de um fruto sobre a mesa,
apenas ferido
por um gume de luz
no meridiano.

Mas nenhuma ameaça,
nem o arnês de dedos
formando-se no horizonte,
apenas o golpe do sol
afiado na vidraça.

Um fruto
é um velho mestre
esperando na luz
as trevas
do amadurecimento.

O vinho só me lembra o não olvido.
Assim serei silêncio de uma história.
És breve. Já te esquece…
Ignara, ali sorrindo na memória,
Dum tempo que futuro hoje é já ido.
Quem ama anoitece.

 

Daniel Jonas / in Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013
Trazido de Súbito

Sonhando danças, vigil marcas passo. Daniel Jonas

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Sonhando danças, vigil marcas passo

Vivendo dormes, vives se adormeces
Na caixinha de música em que esqueces
Como um velho, sobre o éter do bagaço.
Oh, em ti rodopias, pobre piasca,
Que sonhas teu compasso visionário,
A falsa valsa, o baile imaginário
Nos clássicos salões da tosca tasca.
E abraços tantos são em que te abraças
Que em sonho lasso o abraço lhe prolongas;
Em aguardente imerso o capitão
Assim aceita os braços de outras braças.
A vida… Porque nela te delongas?
A vida cabe toda num caixão.

Daniel Jonas,

in “Nó” assírio & alvim, 2014