Categoria: Iosif Brodskii

Epitáfio para um centauro. Iosif Brodskii

Dizer que foi um infeliz é dizer de mais
ou de menos, depende de quem esteja a escutar.
No entanto, o cheiro que exalava era um tanto de mais,
e o seu trote era também algo difícil de acompanhar.
Dizia: Queria apenas um monumento, mas algo acabou por se extraviar:
– o útero, a linha de montagem, a economia?
Ou então a guerra é que nunca aconteceu, confraternizaram com o inimigo
e deixaram-no ficar assim, provavelmente para retratar
a Intransigência, a Incompatibilidade – esse tipo de coisas que provam
não tanto a nossa singularidade ou virtude, mas a probabilidade.
Durante anos vagueou por olivais, tal uma nuvem,
maravilhando-se com esse entes unipernetas, pais da imobilidade.
Aprendeu a mentir a si próprio, do que fez uma arte,
à falta de melhor companhia, e também para testar a sua sanidade.
E morreu relativamente jovem – porque a parte
animal mostrou-se menos capaz de durar que a sua humanidade.

Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Livros Cotovia, 2001

Transatlântico. Iosif Brodskii

Os últimos vinte anos foram bons praticamente para toda a gente
menos para os mortos. Mas talvez também para eles.
Talvez o Todo-Poderoso-em-Pessoa se tenha tornado um tanto burguês
e use cartão de crédito. Pois doutra maneira a passagem do tempo
não faz sentido. Daí as recordações, as memórias,
os valores, as maneiras de sociedade. Esperamos não termos
gasto a mãe ou o pai ou ambos, ou uma mão cheia de amigos até ao
último, pelo facto de deixarem de nos povoar os sonhos. Os sonhos,
ao contrário da cidade, despovoam-se
à medida que envelhecemos. Por isso é que o eterno descanso
oblitera a análise. Os últimos vinte anos foram bons
praticamente para toda a gente e constituíram
a vida no outro mundo para os mortos. A qualidade dessa vida podia ser
questionada mas não a duração. Os mortos, supõe-se, não se
importariam de conseguir o estatuto de sem-abrigo e dormir em passagens
pedonais, ou de ficar a ver os submarinos grávidos regressarem
ao curral onde nasceram no fim duma viagem à volta do mundo
sem destruírem vida na terra, sem terem
sequer um pavilhão decente para içarem.
——-