Categoria: Vitorino Nemésio

Os anjos. Vitorino Nemésio

pena2

Os anjos são rijos como as pedras

E leves como as prumas.

Na leira rasa de aves, Tu, que redras

Terra, névoas e espumas,

—Deus, de teu nome! —sabes

Que um anjo é pouco e imenso:

Por isso cabes

No anjo e ergues o incenso.

 

Desfaleço a pensar-te,

Ó ser de Anjos e Deus

Que baixa em mim:

Sobe-me na alma, que ando a procurar-te

E dizendo-te Deus

Acho-te assim.

 

Anjos são os terríveis

Modos de Deus connosco;

Nós, as suas possíveis

Transparências a fosco.

 

Lívidos, sem respiração

Ficávamos do toque

Da primeira asa vinda;

Mas eles rondam apenas a oração

Que múrmura os evoque,

E vão-se, e tornam ainda.

 

Deles para cima, ainda mais graus de glória

Relutam ao sentido

Que deles vem à memória

Como uma bolha de ar na água do olvido:

No mais, são tão pesados,

Os anjos leves ao justo…

Tão alados,

Mas desgostosos do nosso susto!

 

É isso! Disse-mo agora

O verbo súbito surpreso:

Ser anjo é espanto da demora

Nossa e do peso pávido

Que nos estende.

Terrível é quem toca terra

Para a levar, e não a rende.

 

Que o anjo, de si, é àvido

De transe e rapidez,

E é ele que chora

Nosso chumbo, hora a hora:

É ele que não entende

A nossa estupidez.

 

Vitorino Nemésio

Poemas de O Pão e a Culpa, Lisboa 1955.

 

Anúncios

Arte Poética. Vitorino Nemésio

2015-11-06 20.43.18

A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.


– Vitorino Nemésio

in O Bicho Harmonioso

A árvore do silêncio. Vitorino Nemésio

IMG_1299


Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore? 
Em que pontas, a corola do silêncio? 
Coração já cansado, és a raiz: 
Uma ave te passe a outro país. 

Coisas de terra são palavra: 
Semeia o que calou. 
Não faz sentido quem lavra 
Se o não colhe do que amou. 

Assim, sílaba e folha, porque não 
Num só ramo levá-las 
Com a graça e o redondo de uma mão? 

(Tu não te calas? Tu não te calas?!) 

5-8-1962

Vitorino Nemésio, Canto de véspera

A Concha. Vitorino Nemésio

Kopia-DSCN3452

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio

Correspondência ao mar. Vitorino Nemésio

Caloura
Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar,

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o Eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo…
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de pólo a pólo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim ‑
Que onde acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
A rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada.
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na minha lembrança que me deixes,

E a rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.

 

Vitorino Nemésio

O Bicho Harmonioso, Coimbra, Revista de Portugal, 1938

 

A concha. Vitorino Nemésio

anzali_beach-wallpaper-1280x960

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio

 

Já um pouco de vento se demora. Vitorino Nemésio

IMG_4061

Já um pouco de vento se demora;
Já sua força vale a de uma mão
Nestes papéis que trago para fora,
Que o campo dá certeza e solidão.

O calor fez a casca mais delgada,
Agora colho a tarde: a vida não.
Sou como a macieira carregada:
De palavras a mais cobri o chão.

Árvores há no outono que conhecem
O toque e ardor das folhas de amanhã
E esperando-as, altas, adormecem.
Com espaço e vento nunca a vida é vã.

Eu volto à mão do outono em meus papéis.
Penso e, indiscreto, o ar remove
Estas imagens cruéis
Que a minha vida comove.

Vitorino Nemésio