Categoria: Gastão Cruz

O teatro das cidades. Gastão Cruz

chuva

Qualquer tempo é um tempo duvidoso

assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água

 

 

Gastão Cruz

O Pianista, 1984

O teatro das cidades. Gastão Cruz

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Qualquer tempo é um tempo duvidoso

assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água

Gastão Cruz

Ofício. Gastão Cruz

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Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.

Gastão Cruz

de cada vez. Gastão Cruz

time

Contínua realidade que me sorves os dias

como hei-de responder-te se vives incluída

dos meus olhos abertos nas ávidas e frias

pedras incertas da vida

prisioneira do espelho que embacias

de cada vez que a turva suicida

torna ao morrer visíveis

as formas com que comes os meus dias

 

Gastão Cruz, 1941