Categoria: Eugénio Andrade

Espera. Eugénio de Andrade

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Aqui onde o exílio

dói como agulhas fundas,

esperarei por ti

até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa

e floresça.

Até que um pássaro me saia da garganta

e no silêncio desapareça.

 

Eugénio Andrade

 

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Faz uma chave, mesmo pequena. Eugénio Andrade

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Faz uma chave, mesmo pequena,

entra na casa.

Consente na doçura, tem dó

da matéria dos sonhos e das aves.

 

Invoca o fogo, a claridade, a música

dos flancos.

Não digas pedra, diz janela.

Não sejas como a sombra.

 

Diz homem, diz criança, diz estrela.

Repete as sílabas

onde a luz é feliz e se demora.

 

Volta a dizer: homem, mulher, criança.

Onde a beleza é mais nova.

 

Eugénio de Andrade

 

 

Barcos ou aves. Eugénio de Andrade

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De noite eram barcos, de manhã são aves:
entram cantando pela casa.
Juntos vão pelos dias como irmãos
gémeos, dependentes
uns dos outros como estrelas
da mesma constelação.
Cada viagem já foi voluptuosa
descoberta de emoções
de porto em porto; agora
é só o gosto inteligente
de regressar à pequena praça
de muros caiados, à casa
onde o corpo se reconheceu noutro corpo,
fiéis a esta luz, este mar.

Eugénio de Andrade, Poesia. Rosto Editora, 2011.

O lugar da casa. Eugénio de Andrade

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Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade



			

Os livros. Eugénio de Andrade

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Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais,
tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

Ofício de Paciência, Eugénio de Andrade