O que se sente e não se consegue dizer. Vergílio Ferreira

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O que habitualmente se sofre (se sente) não se pode
contar. Não é só porque isso é normalmente ridículo
(porque a grande maior parte do que se pensa e sente
é ridículo) e só o que é grande é que cai bem e vale
portanto a pena dizer-se. É que o dizer-se altera o que
se diz. O sentir é irredutível ao dizer. Só o estar
sofrendo diz o sofrer. Na palavra ninguém o reconhece
ou reconhece-o de outra maneira, essa maneira em
que já o não reconhece o que o conta. Mas dizia eu
que a generalidade do que se pensa, sente, é ridícula.
São raros os momentos de «elevação». A quase
totalidade do tempo passamo-la distraídos, alheados
em ideias sem interesse, nascidas de coisas sem
interesse, as coisas que vai havendo à nossa volta ou
no nosso divagar imaginativo ou que nem sequer chega
a haver porque há só a abstracção total no
quedarmo-nos pregados às coisas que nem vemos nem
nos despertam ideia alguma e estão ali apenas como
ponto de fixação do nosso absoluto vazio interior. 

Vergílio Ferreira

… a palavra… Vergílio Ferreira

Salema

Se eu soubesse a palavra,

a que subjaz aos milhões das que já disse,

a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,

a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,

a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,

a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,

a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,

a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,

a que está antes de uma grande Lua nascer,

a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,

a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,

a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,

a que está num astro morto onde ninguém foi,

a que está numa pedra quando a olho a sós,

a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,

a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,

a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,

a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,

a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala por nós,

 

– se eu soubesse a palavra,

a única, a última,

e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…

 

in Uma Esplanada sobre o mar (Difel, 1986)

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Só nos Pertence o Gesto que Fizemos. Vergílio Ferreira

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Só nos pertence o gesto que fizemos
não o fazê-lo como, iludida,
a divindade que em nós já trouxemos
supõe errada (e não) por convencida.

Porque o traçado nosso em breve cessa,
para que outro o recomece e não progrida;
que um gesto em ser gesto real se meça,
não está em nós fazê-lo, mas na Vida.

Assim o nada a sagra quando finda
porque o que é, só é o não ainda.

Vergílio Ferreira

in Conta-Corrente