No dia primeiro de um novo ano, sobre poesia

“No outro dia, perguntaram-me para que serve a poesia. Eu disse que ela servia para nos livrarmos, nem que por uns segundos valentes, da noção de utilidade. E de noções que lhe são parasitas, como as de transmitir uma mensagem, ou a de que essa mensagem contenha em si um certo grau de razoabilidade. Acho que comunicar alguma coisa é um incidente ocasional no poema. Quando pensamos em linguagem, pensamos em comunicar. Mas a poesia é sobretudo um gesto. Esse gesto pode estar representado na mão que mendiga, na mão que acena, naquela que esmurra, etc. A coloração que se atribui a esse gesto é, para o efeito, indiferente. Falo de coloração no sentido de falar de linguagem, do abc da poesia. O abc da poesia não é feito para comunicar, no sentido em que se comunicam coisas como: “este livro é sobre a guerra-colonial portuguesa”, ou “o PIB aumentou”, ou “este frango está frio”. A poesia não diz propriamente coisas. Ela atribui uma luz especial à ginástica emotiva de quem quer dizer certas coisas. A linguagem na poesia, no contexto da comunicação, é um fundo perdido. O mesmo já não se pode dizer do estalo da língua. Quando tentamos perceber um surdo-mudo, ouvimos grunhidos e esse estalo da língua. O mesmo se passa quando uma pessoa nos fala em modos emocionalmente inflacionados: quando essa pessoa está furiosa ou quando é picada pelo êxtase, ou quando num certo dia acordou tantos degraus abaixo da cama (e portanto de um nível socialmente aceitável de andar por aqui) que só sabe arrastar a boca por mesas de café e descansar a cabeça por onde calha. Para mim, a poesia é o esboço possível destes estados de alerta. Que mensagem se pode esperar de uma pessoa que tem, no momento em que é olhada, o cano de uma arma apontado à cabeça? Ou que informação importante, no mundo das coisas importantes, se pode sacar de uma pessoa que anda aos pulos por ter agarrado um momento a que por decoro os académicos chamam epifania, mas que é só a excitação de ter agarrado por instantes o eu escorregadio dentro das águas do hábito, e de o ter olhado nos olhos, no sofrimento de se debater fora dessas águas? A poesia também é isto: vermos o peixe moribundo no convés, contorcermo-nos com ele antes de o atirarmos ao mar. É tão sangrento que não o podemos comer. Fazer poemas é descrever os segundos em que olhámos o nosso próprio jogo de contorção. Ninguém pode viver só disto. Já foi tentado, alguns deram um tiro na cabeça, outros afogaram-se, foram atrás do seu peixe. Ninguém pode viver só disto, mas de vez em quando escrevem-se livros. E alguns até são de poesia.”

Frederico Brandão, trazido d’aqui