Categoria: Jorge de Sena

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya. Jorge de Sena

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.

É possível, porque tudo é possível, que ele seja

aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,

onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém

de nada haver que não seja simples e natural.

 

Um mundo em que tudo seja permitido,

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto

o que vos interesse para viver. Tudo é possível,

ainda quando lutemos, como devemos lutar,

por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,

ou mais que qualquer delas uma fiel

dedicação à honra de estar vivo.

(…)

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém

vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa – essa alegria.

Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto

não é senão essa alegria que vem

de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez

alguém está menos vivo ou sofre ou morre

para que um só de vós resista um pouco mais

à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente,

sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,

e sobretudo sem desapego ou indiferença,

ardentemente espero. Tanto sangue,

tanta dor, tanta angústia, um dia

 

– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –

 

não hão-de ser em vão. Confesso que

muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos

de opressão e crueldade, hesito por momentos

e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,

quem ressuscita esses milhões, quem restitui

não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes

aquele instante que não viveram, aquele objeto

que não fruíram, aquele gesto

de amor, que fariam «amanhã».

E, por isso, o mesmo mundo que criemos

nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa

que não é nossa, que nos é cedida

para a guardarmos respeitosamente

em memória do sangue que nos corre nas veias,

da nossa carne que foi outra, do amor que

outros não amaram porque lho roubaram.

 

Lisboa, 25/6/1959

Jorge de Sena, Poesia II. Lisboa, Edições 70, 1988

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Deixai que a Vida sobre Vós Repouse. Jorge de Sena

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

Jorge de Sena, in ‘As Evidências’

Ode para o Futuro. Jorge de Sena

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
– apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós – de nós! – como de um sonho.

Jorge de Sena, in ‘Pedra Filosofal’

A cidade feliz. Jorge de Sena

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Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
E que não existe para sempre mesmo depois das palavras?

Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras…
De longe se não vê que toda a gente luta,
se devora e desvairadamente contempla
que a sua flor, lindíssima, resista.

Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
Quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?

Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O Sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?

Jorge de Sena

Cantar do Amigo Perfeito. Jorge de Sena

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Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que passámos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo?

Aqui passeámos tanta vez, por entre os corpos
da alheia juventude, impudica ou severa,
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se,
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas;
e o meu e o teu olhar guiando-se leais,
de nós um para o outro conquistando
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui relembro as ruas tenebrosas,
de vulto em vulto percorridas, lado a lado,
numa nudez sem espírito, confiança
tranquila e áspera, animal e tácita,
já menos que amizade, mas diversa
da suspeição do amor, tão cauta e delicada
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda as recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui, sorrindo em branda mágoa,
desfiámos, sem palavras castamente cruas,
não já sequer os íntimos segredos
que o próprio amor, porque ama, não confessa,
nem a vaidade humana dos sentidos, mas
subtis fraquezas vis, ingénuas e secretas
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó amigo?

*

Partiste e foi contigo a juventude.
Ficou o silêncio adulto, pensativo e pródigo,
e o terror de não ser minha estátua jacente
sobre o túmulo frio onde as cinzas da infância
desmentem – palpitar de traiçoeira fénix! –
que só do amor ou só da terra haja saudade.
Em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
tu sabes que a levaste, ó meu amigo?

Jorge de Sena, in ‘Pedra Filosofal’

Ascensão. Jorge de Sena

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Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim, Sei que vou com ela.

Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,

sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, –
nunca estive tão perto da verdade.

Jorge de Sena, in ‘Perseguição’

Ode à mentira. Jorge de Sena

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Crueldades, prisões, perseguições, injustiças, 
como sereis cruéis, como sereis injustas? 
Quem torturais, quem perseguis, 
quem esmagais vilmente em ferros que inventais, 
apenas sendo vosso gemeria as dores 
que ansiosamente ao vosso medo lembram 
e ao vosso coração cardíaco constrangem. 
Quem de vós morre, quem de por vós a vida 
lhe vai sendo sugada a cada canto 
dos gestos e palavras, nas esquinas 
das ruas e dos montes e dos mares 
da terra que marcais, matriculais, comprais, 
vendeis, hipotecais, regais a sangue, 
esses e os outros, que, de olhar à escuta 
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos, 
vos contemplam como coisas óbvias, 
fatais a vós que não a quem matais, 
esses e os outros todos… – como sereis cruéis, 
como sereis injustas, como sereis tão falsas? 
Ferocidade, falsidade, injúria 
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso 
o coração que apavorado em vós soluça 
a raiva ansiosa de esmagar as pedras 
dessa encosta abrupta que desceis. 
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo. 
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos? 
Descereis, descereis sempre, descereis. 

Jorge de Sena