Natal de 1971. Jorge de Sena

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Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma Justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido.
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se.
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé.
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm.
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena

Tu és a terra… Jorge de Sena

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Tu és a terra em que pouso.

Macia, suave, terna, e dura o quanto baste

a que teus braços como tua pernas

tenham de amor a força que me abraça.

 

És também pedra qual a terra às vezes

contra que nas arestas me lacero e firo,

mas de musgo coberta refrescando

as próprias chagas de existir contigo.

 

E sombra de árvores, e flores e frutos,

rendidos a meu gesto e meu sabor.

E uma água cristalina e murmurante

que me segreda só de amor no mundo.

 

És a terra em que pouso. Não paisagem,

não Madre Terra nem raptada ninfa

de bosques e montanhas. Terra humana

em que me pouso inteiro e para sempre.

 

Jorge de Sena

Londres, 15/3/1973

Elogio da vida monástica. Jorge de Sena

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Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.

Jorge de Sena
40 Anos de Servidão, edições 70, 1989

Metamorfose. Jorge de Sena

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Ao pé dos cardos sobre a areia fina 
que o vento a pouco e pouco amontoara 
contra o seu corpo (mal se distinguia 
tal como as plantas entre a areia arfando) 
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto? 
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas, 
quantos luares nas águas ou nas nuvens, 
tisnado haviam essa pele tão lisa 
em que a penugem tinha areia esparsa? 
Negros cabelos se espalhavam onde 
nos braços recruzados se escondia o rosto. 
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos 
no breve espaço em que o seu bafo ardia? 
Mas respirava? Ou só uma luz difusa 
se demorava no seu dorso ondeante 
que de tão nu e antigo se vestia 
da confiada ausência em que dormia? 
Mas dormiria? As pernas estendidas, 
com um pé sobre outro pé e os calcanhares 
um pouco soerguidos na lembrança de asas; 
as nádegas suaves, as espáduas curvas 
e na tão leve sombra das axilas 
adivinhados pêlos... Deus ou deusa? 
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto? 
Ou não dormia? Ou não estaria ali? 
Ao pé dos cardos, junto à solidão 
que quase lhe tocava do areal imenso, 
do imenso mundo, e as águas sussurrando - 
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa? 
Imagem, só lembrança, aspiração? 
De perto ou longe não se distinguia.

Jorge de Sena

Desencontro. Jorge de Sena

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Só quem procura sabe como há dias

de imensa paz deserta; pelas ruas

a luz perpassa dividida em duas:

a luz que pousa nas paredes frias,

outra que oscila desenhando estrias

nos corpos ascendentes como luas

suspensas, vagas, deslizantes, nuas,

alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto

a um gesto corresponde; olhar nenhum

perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta

a solidão sem fim, sem nome algum –

– que mesmo o que se encontra não se encontra.

 

Jorge de Sena

O corpo não espera. Jorge de Sena

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O corpo não espera. Não. Por  nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura acetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sede, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo.

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge de Sena

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