Categoria: Boris Vian

Quero uma vida em forma de espinha. Boris Vian

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Quero uma vida em forma de espinha

 

Num prato azul

 

Quero uma vida em forma de coisa

 

No fundo dum sítio sozinho

 

Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos

 

Em forma de pão verde ou de cântara

 

Em forma de sapata mole

 

Em forma de tanglomanglo

 

De limpa-chaminés ou de lilás

 

De terra cheia de calhaus

 

De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco

 

Quero uma vida em forma de ti

 

E tenho-a mas ainda não é bastante

 

Eu nunca estou contente

 

 

 

 

 

 

Boris Vian

 

canções e poemas

 

tradução de irene freire nunes e fernando cabral martins

 

assírio & alvim

 

1997

 

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Le déserteur. Boris Vian

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Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m’en vais déserter

Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer.

Boris Vian

Há sol na rua. Boris Vian

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Há sol na rua
Gosto do sol mas não gosto da rua
Então fico em casa
À espera que o mundo venha
Com as suas torres douradas
E as suas cascatas brancas
Com suas vozes de lágrimas
E as canções das pessoas que são alegres
Ou são pagas para cantar
E à noite chega um momento
Em que a rua se transforma noutra coisa
E desaparece sob a plumagem
Da noite cheia de talvez
E dos sonhos dos que estão mortos
Então saio para a rua
Ela estende-se até à madrugada
Um fumo espraia-se muito perto
E eu ando no meio da água seca .
Da água áspera da noite fresca
O sol voltará em breve

Boris Vian