Categoria: Wislawa Szymborska

A cada cem pessoas. Wisława Szymborska

A cada cem pessoas:

sabem de tudo e muito melhor do que os outros:
– cinquenta e duas.

ficam inseguras a cada passo:
– quase todas as outras.

estão prontas a ajudar
desde é claro que isso não lhes tome muito tempo:
– quarenta e nove, o que já não é mau.

são sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
– quatro… vá lá, talvez cinco.

estão prontas a admirar sem inveja:
– dezoito.

são induzidas ao erro
por uma juventude que passa tão depressa:
– umas sessenta.

com quem não se pode brincar:
– quarenta e quatro.

vivem angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
– setenta e sete.

são dotadíssimas para a felicidade:
– no máximo vinte e tal.

inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
– isso, o melhor é não tentar saber nem aproximadamente.

não pedem nada da vida exceto coisas:
– trinta, mas preferia estar enganada.

encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas:
– cedo ou tarde, oitenta e três.

justas:
– pelo menos trinta e cinco, e lamba os beiços.

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
– três.

dignas de compaixão:
– noventa e nove.

mortais:
– cem entre cem,
número que, até momento, não é possível alterar.

 

Wisława Szymborska, in Instante, Relógio D’Água, 2006, pp. 63-65.

Elogio dos sonhos. Wislawa Szymborska

Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.

Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.

Conduzo um automóvel
que me é obediente.

Sou hábil,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
tão bem como os santos mais austeros.

Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.

Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.

Ao cair de um telhado
sei como descer levemente na verdura.

Não tenho problemas
em respirar debaixo de água.

Não me lamento:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico contente porque, antes de morrer,
consigo acordar sempre.

A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.

Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.

Aqui há alguns anos
vi dois sóis.

E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.

Wislawa Szymborska, Paisagem com grão de areia, Relógio d’Água, 1988, p. 133

Possibilidades. Wislawa Szymborska

Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.

Wislawa Szymborska,

“rosa do mundo” assírio & alvim, 2001