Noite. Toni Montesinos Gilbert

ourem-portico por sol

Encontro a frágil felicidade
alojado nas noites partilhadas,
quando a amizade se revela nua
e os bebedores querem viver
a vida mais certa: a companhia.

É em noites assim que eu amo
a vida numa dimensão surpreendente.

É a minha única trégua na tristeza,
é o único momento sem morte
deste instante feliz chamado noite.
A vida deveria ser essa noite
que reúne todas as solidões.

Toni Montesinos Gilbert
(tradução de Manuel de Freitas)

Anúncio. Toni Montesinos Gilbert

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Procuro mulher sincera e cautelosa,

bela, hábil na cozinha e na cama,

de boa linhagem, sabia e eficiente,

que seja cuidadosa, terna, doce,

extrovertida e de aspecto elegante.

 

Que se dispa lentamente e tenha

carta de condução, uma carreira,

olhos grandes e boca muito suave.

 

Nem muitos nem poucos anos: os necessários.

 

Deverá, ainda assim, dar-me alegria.

 

Tem de praticar desporto, e gostar

de música clássica e de leitura;

atenta e sociável com os meus amigos.

 

Não interessa a cor do cabelo,

a raça ou a cultura. Quero apenas amá-la.

Quero que, ao vê-la, a vida comece.

Procuro apenas uma mulher preparada

para viver a minha prolongada morte.

 

Tomi Montesinos Gilbert

Tradução de Manuel de Freitas

(imagem Lydia Cornell)

 

Vida de areia. Toni Montesinos Gilbert

Beach Macro_themesforiphone_Flickr

Quem dera que fosse feito de pó azul

para me diluir em todas as almas.

Se o meu corpo fosse pó a voar

passagens de céu, com um pouco

de frialdade, mereceria as mortes

irrecuperáveis, para sempre já

empoeirados pela sua ausência histórica.

 

Perderam-se, ficaram sem sangue.

E foi porque ninguém voltou a chamá-las.

E começaram a sonhar com montanhas,

e mais tarde com pedras, depois com areia

do tempo deserto. E por fim, com pó.

O sonho solitário conduziu-as

a cavar o amor numa estrela,

junto do que nunca puderam ter.

 

Eu quero chegar a todas as almas,

ser azul para distender o tempo,

ser um horizonte entre vida e morte,

esperar os amanheceres lento,

como se voltasse a nascer, azulado.

 

Quem dera que estivesse fora do século,

sem correspondência com nenhum espaço

concreto, sentir-me livre como pó

diluído em qualquer das ruas

conhecidas por onde caminhei.

Ser a presença total e absoluta.

Possuir o olhar omnipresente…

 

Mas apenas sou de carne e osso.

Um dia morrerei e não poderei pensar,

nunca mais, como construir um relógio

para sentir a vida mais extensa.

 

Toni Montesinos Gilbert

poesia espanhola, anos 90

trad. Joaquim Manuel Magalhães

relógio d´água

2000