Categoria: Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava

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A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.

Luís Miguel Nava

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A Fome. Luís Miguel Nava

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Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

Luís Miguel Nava. Vulcão,  Quetzal, 1994.

As ondas que se encontram. Luís Miguel Nava

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As ondas que se encontram

ainda agora em formação no espírito

dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve

com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,

saber que se ele

fosse uma cama estaria por fazer nada me traz

agora além de desconforto.

 

Luís Miguel Nava. Poemas, Porto: Limiar, 1987, p.59.

Não muita vez. Luis Miguel Nava

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Não muita vez nos vemos, mas, se poucos

amigos há para falar

dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos

é ele o que melhor vai com a minha fome.

Os dedos com que me tocou

persistem sob a pele, onde a memória os move.

Tacteiam, impolutos. Tantas vezes

o suor os traz consigo da memória, que não tenho

na pele poro através

do qual eles não procurem

sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória.

 

Luís Miguel Nava

poesia completa (1979-1994)

publicações dom quixote, 2002

Paixão. Luís Miguel Nava

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Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais lonquínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.

Luis Miguel Nava

Sem outro intuito. Luis Miguel Nava

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Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava
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