Categoria: Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento. Fernando Pessoa

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“Tenho tanto sentimento

Que e’ frequente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheco, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que nao senti afinal.

Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar.”

 

Fernando Pessoa

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Raio de sol. Fernando Pessoa.

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Ando à busca de outro
Que consiga o ser
Tão variado e neutro
Que sinto ao viver…

A hora nos embala?
Mas viver é só isso…
E tudo se cala
Como por feitiço

E mais inconsciente
Do mistério que arde
No poente cinzento
Com restos de alarde…

Nós não somos nada
Minha dolorida
A alma é uma estrada…
E onde é o fim da vida?

Castelos de areia…
Não chega lá o mar
Mas a alma está cheia
De não descansar.

Que nas tuas preces
Eu seja lembrado,
Cismo… Estremeces…
Sim. Tudo é sonhado…

Fernando Pessoa, In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed.

Não sei quantas almas tenho. Fernando Pessoa

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Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

Toda esta viagem. Fernando Pessoa

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Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.

Fernando Pessoa.

Poesias Inéditas (1930-1935).

Nao digas nada! Fernando Pessoa

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Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa.

Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). p. 167.

É fácil trocar as palavras. Fernando Pessoa

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É fácil trocar as palavras
Dificil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;

As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,

Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.”

Fernando Pessoa

Não digas nada. Fernando Pessoa

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Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa