Categoria: Jorge Melícias

Iniciação ao remorso. Jorge Melícias

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Há os que vêm de longe, trazendo nas mãos

e nas pálpebras o mar exilado.

À porta descalçam as sandálias

gastas de inventariar o pó,

e antes que entrem na casa do poema

coroam-se de silêncio e silvas.

Percorrem depois longamente as paredes

fechando janelas onde não existem,

e rente à cegueira vão recolhendo as aves

que tropeçam na luz dos dedos.

Grandes rios negros atravessam a noite e os pulsos,

e as palavras doem nas unhas como espinhos acesos.

E há os outros, os que rondaram desde sempre

a casa sem se atreverem a entrar.

Falo dos que percorrem a lâmina do poema

medindo a eternidade pela distância

que vai dos lábios ao nome.

Dos que bebem as árvores entornadas nas palavras,

e esperam que dos gestos caiam os últimos deuses

destronados pelo rasgar dos frutos.

Falo dos que vêm do lado da loucura

e trazem na boca os olhos

com que quiseram acender todos os fogos.

Dos que viajam a cinza e o assombro,

demorando-se em tudo o que mais ninguém tropeça.

 

Jorge Melícias

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