Categoria: Luís Filipe Parrado

Diálogo íntimo sobre o valor pedagógico da História. Luís Filipe Parrado

Lês, dizes-me, um livro
muito interessante
sobre os grandes generais romanos,
“os homens que construíram
o império”.
Depois citas Apiano
e um episódio em particular
das suas Guerras hispânicas,
esse em que o historiador
refere como Públio Cornélio Cipião,
dito o Africano,
sem dúvida
um extraordinário estratega,
durante o cerco
de Numância
deu ordem aos seus legionários
para que cortassem
as mãos de 400 prisioneiros
celtiberos.
Tratou-se, pelo que pudeste
compreender,
de um acto militar de intimidação
contra todos os que se atreviam
a desafiar o longo
braço imperial.
O que não és capaz de esclarecer
é qual o destino dado
a cada uma dessas
800 mãos.
Terão estrumado a terra ibérica,
alimentado os cães sarnentos
dos centuriões,
ou, cravadas em estacas
e expostas nas encruzilhadas,
como as cabeças
dos bárbaros vencidos,
funcionado como lastimosos
sinais de tráfego
nas bermas dos caminhos
que seguiam invariavelmente
em direcção a Roma?
Sem resposta tua
às minhas perguntas,
resta-me conceber na imaginação
o acontecido,
consciente todavia
de que imaginar
é um acto arriscado
– não mostra a História
que muitos,
no correr dos séculos,
ficaram sem a cabeça
porque, impertinentes, o ousaram?
Ainda assim, ironizas,
não tão perigoso como cercar
ou defender de um cerco
uma cidade,
não te parece?
Agora fico eu em silêncio
enquanto tu,
um meio sorriso ainda sobre os lábios,
viras a página e o rosto,
no preciso momento em que as legiões
de Públio Cornélio Cipião,
o Africano,
arrasam Numância,
no ano de 134 a. C.
Mas não podia ser outra a cidade,
e a data também?,
pergunto por fim.

 

[in Criatura, nº 3, Abril 2009]

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Nem mais uma palavra sobre a beleza. Luís Filipe Parrado

Nem mais uma palavra sobre a beleza,
chega de palavras sobre a beleza, a visão nocturna
dos teus olhos não importa verdadeiramente
a ninguém. Melhor será observar a brusquidão
das aves (andorinhas, cartaxos, pardais vulgares…)
que, sem defesa, sobrevoam, ao entardecer,
os olivais que restam junto aos blocos
de apartamentos que alcanço da tua janela.
Vou deixar de lado todas as imagens que conheço,
usar apenas palavras lentas e rasteiras.
Provavelmente, terei de descobrir uma língua
nova, mais humilde, para falar destas aves,
do modo como guinam na luz desguarnecida,
como pousam nos ramos das oliveiras,
ou nos telhados, à nossa frente
– com a traição do mundo em suspenso –
ou nos cabos eléctricos estendidos ao longo de ruas
por onde raramente passa alguém.
É sobre isto, sobre esta estranha veemência
que vou escrever, sobre o que verdadeiramente
importa. Só preciso de me defender de palavras turvas.

Luís Filipe Parrado

Teoria da narrativa familiar. Luís Filipe Parrado


Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

Luís Filipe Parrado
Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa, 2012.

O fotógrafo cego. Luís Filipe Parrado

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Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,

a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.

Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.
Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,
escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.

Fosse eu e espalharia a luz.

Luís Filipe Parrado

Revista criatura n.º 4, Dezembro 2009

O que mais amo. Luís Filipe Parrado

Jeannette4, Dan Burkholder

Não sou capaz de estranhas paixões

e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.
Luís Filipe Parrado
Entre a carne e o osso, Língua Morta