Categoria: Luís Quintais

Firmamento. Luís Quintais

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Uma multidão de que te alheias.
Vozes sobrepostas
destroem o sentido

e a tua inclinação por ideias de ordem
desvia-te para um lugar escuro, silente
(assim o pressentes),

uma sala do lado esquerdo,
ao fundo, onde ninguém está.
Em rigor há uma luz dispersa,

uma atmosfera de encanto e morte.
Um espelho espreita.
Os circunstantes degladiando-se

num arremesso de vozes.
Estão nele, são espreitados.
Sonhas a armadilha que o voluntário

espelho revela. O tempo
suspende-se
sob o efeito de um sortilégio.

Nessa sala onde a obscuridade
não é total (os olhos vêem mais
depois da atenção),

a multidão a teu lado, sitiando-te,
é engolida pela perseguição
geométrica.

Antecedes o momento
em que o mundo acaba
e uma fúria de vitorioso esquecimento

apaga os despojos
das irredutíveis vozes
e a imagem do teu rosto

perseguindo o jogo perseguidor.

Duelo, Edições Cotovia, 2004

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Cedros dos Himalaias. Luis Quintais

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São vários os conceitos que me movem.
Um gesto abstracto desfila na imaginação:
sobre o azul, os cedros dos Himalaias.

É este o jardim de tarde que procuro.
Um lugar de intensa luz que cegue rotinas,
repetidos esquemas de pensamento.

A mesma luz até à renovada frase.
Transportem-se cedros dos Himalaias
pela imaginação adentro,

e a imensa realidade tornar-se-á
desabitável, desabituável,
repleta de conceitos que nos movam.

Luis Quintais, Umbria, 1999