Categoria: Rosa Lobato de Faria

Pequenas palavras. Rosa Lobato de Faria

agua

De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.

Rosa Lobato de Faria

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De ti só quero o cheiro dos lilases. Rosa Lobato de Faria

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De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.

Rosa Lobato de Faria, A Noite Inteira já não chega

Quimera. Rosa Lobato de Faria

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Eu quis um violino no telhado

e uma arara exótica no banho.

Eu quis uma toalha de brocado

e um pavão real do meu tamanho.

Eu quis todos os cheiros do pecado

e toda a santidade que não tenho.

Eu quis uma pintura aos pés da cama

infinita de azul e perspectiva.

Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana

na hora da orgia prometida.

Eu quis uma opulência de sultana

e a miséria amarga da mendiga.

Eu quis um vinho feito de medronho

de veneno, de beijos, de suspiros.

Eu quis a morte de viver dum sonho

eu quis a sorte de morrer dum tiro.

Eu quis chorar por ti durante o sono

eu quis ao acordar fugir contigo.

Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.

Por isso fiquei só, com o meu corpo.

Rosa Lobato de Faria

Palavras, Rosa Lobato de Faria

banco2

É costume atirá-las sobre o medo.
Dizê-las sem pudor sobre o palco da noite
com grandes gestos gritos e lágrimas.
Com elas percorremos
os oblíquos caminhos
que a solidão conhece.
Com elas ardilosos enganamos a alma.

Mas são as outras
as claras as fugazes
as tímidas as doces
as pequenas palavras
que salvam os amantes.

Rosa Lobato de Faria