Categoria: José Miguel Silva

Musa, sinceramente. José Miguel Silva

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.

Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,

aguados humoristas e outros promotores

da realidade? Eu sei que não identificas real

com verdadeiro, nem sequer com existente,

mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,

por brilhante que seja, neste mundo de gritos,

de sementes apagadas em lameiros de cimento?

Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste

falar da impermeabilização dos solos na cidade

de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?

Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te

capaz de competir com traficantes de desejos,

decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um

desempregado, de excitar um espírito impotente?

Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo

Quaresma, proteger do frio as andorinhas,

transportar as crianças à escola? Se achas que sim,

faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.

Mas não contes comigo pra te levar à praia.

Sabes perfeitamente que detesto areia, sol

na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.

Pela parte que me toca, ficamos por aqui.

 

José Miguel Silva

Vista para um pátio. José Miguel Silva

Cai um sino do pinheiro de natal.

Por muito menos se foge de casa

de seus pais. Agachados sob o leque

das hortênsias, descobrimos que as lágrimas

são fáceis de engolir. Sem saber,

já chegamos ao escuro.

Só nos falta pôr o til na palavra solidão.

 

josé miguel silva

vista para um pátio seguido de desordem

relógio d´água, 2003

Teatro político. José Miguel Silva

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Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013

Passagem. José Miguel Silva

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Em Segóvia há uma praça,

na praça uma varanda, na varanda

o rasto de ninguém.

 

Mas tens uma cadeira no café,

abundante chá de tília,

a certeza de que dentro duma hora

vai abrir-se para ti

a livraria da esquina.

 

É pouco mas sossega,

sob o bolso da camisa,

o motim do coração.

 

 

José Miguel Silva

ulisses já não mora aqui

língua morta

2014