Categoria: José Miguel Silva

Teatro político. José Miguel Silva

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Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013

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Passagem. José Miguel Silva

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Em Segóvia há uma praça,

na praça uma varanda, na varanda

o rasto de ninguém.

 

Mas tens uma cadeira no café,

abundante chá de tília,

a certeza de que dentro duma hora

vai abrir-se para ti

a livraria da esquina.

 

É pouco mas sossega,

sob o bolso da camisa,

o motim do coração.

 

 

José Miguel Silva

ulisses já não mora aqui

língua morta

2014