Num tapete de água. Thomas Bernhard

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Num tapete de água

vou bordando os meus dias,

os meus deuses e as minhas doenças.

 

Num tapete de verdura

vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,

as minhas manhãs azuis,

as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

 

Num tapete de terra

vou bordando a minha efemeridade.

Nele vou bordando a minha noite

e a minha fome,

a minha tristeza

e o navio de guerra dos meus desesperos,

que vai deslizando p’ra mil outras águas,

para as águas do desassossego,

para as águas da imortalidade.

 

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, tradução e introdução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

trazido de Vício da Poesia