Categoria: René Char

Fastos. René Char

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O Verão cantava sobre a sua rocha preferida
quando tu me apareceste,

o Verão cantava afastado de nós
que éramos silêncio,
simpatia,
liberdade triste,
mar
mais ainda do que o mar,
cuja enorme comporta azul
brincava aos nossos pés.

O Verão cantava
e o teu coração nadava longe dele.
Eu beijava a tua coragem,
entendia a tua perturbação.

Estrada através do absoluto das vagas
em direcção a esses altos picos de escuma
onde navegam virtudes assassinas
para as mãos que seguram as nossas casas.

Não éramos crédulos.
Éramos rodeados.

Os anos passaram.
As tempestades morreram.
O mundo partiu.

Sofria
por sentir que era o teu coração que já não me conhecia.

Eu amava-te.
Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade.

Eu amava-te,
mudando em tudo,
fiel a ti.

rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000

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Nous paroles sont lentes à nous parvenir. René Char

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Nos paroles sont lentes à nous parvenir,
comme si elles contenaient, séparées,
une sève suffisante pour rester closes tout un hiver ;
ou mieux,
comme si, à chaque extrémité de la silencieuse distance,
se mettant en joue,
il leur était interdit de s’élancer et de se joindre.
Notre voix court de l’un à l’autre,
mais chaque avenue, chaque treille, chaque fourré,
la tire à lui, la retient, l’interroge.
Tout est prétexte à la ralentir.

Souvent je ne parle que pour Toi,
afin que la terre m’oublie.

Après le vent c’était toujours plus beau, bien que la douleur de la nature continuât.

 René Char, Lettera amorosa, Poésie Gallimard, p. 33.

ensinou-me a voar sobre a noite das palavras. René Char

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Ensinou-me a voar sobre a noite das palavras,
longe do aborrecimento dos navios ancorados.

Não é o glaciar que nos importa
mas o que o torna possível indefinidamente,
a sua verosimilhança solitária.

Liguei-me a ódios entusiásticos
que ajudei a vencer e depois abandonei.
(Basta fechar os olhos para já não se ser reconhecido.)
Retirei às coisas a ilusão
que causam para se protegerem de nós
e deixei-lhes a parte que nos concedem.
Vi que nunca haveria mulher para mim
na MINHA cidade.
O frenesim das pândegas,
simbolicamente,
justificaria a minha boa vontade.

Atravessei deste modo a idade da solidão
até à morada seguinte d’o HOMEM VIOLETA.

Mas ele só dispunha do triste estado civil das suas prisões,
da sua experiência muda de perseguido
e nós,
nós só tínhamos a sua descrição de evadido.

René Char
(tradução de Y. K. Centeno)