Categoria: Lieke Marsman

5. Lieke Marsman

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Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua

Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente

Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,

Sendo contudo sempre uma árvore existente

Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que

tudo girava à volta da minha pessoa

Se tudo girasse à minha volta

Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente

porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança

que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono

Se eu fosse novamente essa criança

Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,

o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre

Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada

a perdoar-me ao mesmo tempo

Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria

Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:

 

Aqui

ergue-te, abre uma janela

com uma mão que sentes, à vista

de alguém que queres sentir,

no reflexo da janela fechada.

 

( de De eerste letter, 2014)

trazido d’aqui

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Como palavras. Lieke Marsman

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Não preciso de pôr um ponto final

a algo que está irrevogavelmente suspenso.

 

Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou

ficar desanimada com isso. Devo projectar algo

que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem

bela e inesgotável como palavras, como palavras.

 

Não preciso de abrir uma porta

para a deixar entrar.

 

Tão-só fechar uma janela

que ela irá querer arrombar.

 

(Lieke Marsman, De De eerste letter, 2014)

trazido d’aqui