Linha de rumo. Ruy Cinnati

Pedro Gomes, El Matador in 1000 imagens
Quem não me deu Amor,
não me deu nada.
Encontro-me parado. . .
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido . . .
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas . . .
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,

Adrede.

Ruy Cinatti

«O Livro do Nómada Meu Amigo», 1958

Tragédia. Ruy Cinatti

nunomorais

E o tempo, o próprio tempo sequioso, boquiaberto,
ladeia muros, amplia-se em deserto
vivo solilóquio que me acomoda os passos,
em derredor penumbra, afinidade.

Branco como a cal que o comemora
sinto nele a verdade, o pasmo do encontro
e bebo água ungida por cadáveres,
alheado da vida que suporto.

E vou deslumbrado pelo mundo,
recolhendo ossos, desfazendo pegadas,
refazendo o ser que me enamora,
tecendo a minha própria eternidade.

– Ruy Cinatti
in 75 Poemas, Averno