Gosto-te. Joaquim Pessoa.

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Gosto-te. E desta certeza se abre a manhã como uma

imensa rosa de desejo indestrutível. O futuro é o pró-
ximo minuto, o que está para além da infatigável religi-
ão dos meus versos, em cuja luz me acendo, feliz e nu.

O meu sorriso conhece a bondade dos animais, o po-
der frágil das corolas, e repete o nome feminino dos ar-
canjos de peitos redondos, perfumados pelas giestas
das veredas do céu.

Gosto-te. Amarrado pelos meus braços de beduíno do
sol, pobre senhor dos desertos, profeta da distância
que há dentro das palavras, onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla da mais inquieta
serenidade.

Gosto-te. E tenho sido feliz por nunca ter seguido os
trilhos que me quiseram destinar. Aqui e ali me pergun-
to, despudoradamente. E sei que não sei mentir. É por
isso, que recolho na face a luz imprescindível ao orgu-
lho dos peixes e dos frutos.

Gosto-te. “Na-na-na, na-ô… Na-na-na, na-ô… na nô”,
canta o espírito do caminho, canta para mim e canta pa-
ra ti, eleva o coração das árvores grandes, coração de
coragem e de sangue fresco e verde, apaixonado e do-
ce, de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe” é agora uma palavra húmida, grá-
vida de água, onde os sinos da erva tocam para convocar
o imenso amor das sílabas. E, ao procurar-te, tremo ape-
nas de ternura, para que nem mesmo a inteligente brisa
da tarde possa dar pela minha presença.
Mais discreto que isto é impossível.

Joaquim Pessoa

Há pequenas aves que têm raízes nas palavras. Joaquim Pessoa

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Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se vêem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor.

Joaquim Pessoa in

“GUARDAR O FOGO, cento e quatro inéditos e uma antologia

De esperas construímos o amor intenso e súbito. Joaquim Pessoa

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De esperas construímos o amor intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos.
No mais profundo silêncio.
E, sem palavras, partíamos com as mãos docemente amarradas
e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossa despedida.

Joaquim Pessoa

Livre e vertical. Joaquim Pessoa.

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O pé fincado na espuma branca
na leve areia poalha destes astros
que respiram o dia pelos troncos, árvores.
Pelas pedras já voam devagar
os exactos pássaros devorando
outros grãos de sol e trigo, areia.

Já sabemos de cor estas manhãs
tão altas e apenas meio-dia
e já os passos ressoam cavos altos
pela sombra dos corpos e dos olhos.
Não há por entre as ruas outras ruas.

Escrevo os versos com sangue disponível
dos pássaros que arremesso contra o espelho.
Caminho livre e vertical dobrando
o finíssimo equilíbrio das manhãs.

Joaquim Pessoa

Reconheço as ruas… Joaquim Pessoa

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Reconheço as ruas e as paredes da infância
mesmo aquelas que já foram derrubadas.
Estava a comer só quando pensei nisto. E agora penso
nas coisas em que pensamos quando comemos sós.
Só posso falar por mim. Converso com o vento, vou com as aves
sobre os gumes aguçados das montanhas, por ali me demora planando
sentindo-me leve, leve, leve, tão leve como se não tivesse pecados ou acabasse de confessar-me.
Volto à cidade, volto a mim, é preciso escolher o vinho, sim, pode ser um Borba,
agora estou eu desencontrado com os meus projectos, as coisas não são feitas como eu penso,
deixo-as ficar assim, mas a minha estratégia era quase imbatível,
entretanto esta história da casa preocupa-me,
é muito dinheiro, o empréstimo compromete-me quase até à morte,
bom, se calhar tenho sorte e chego aos oitenta, até mais quem sabe?,
mas também posso apagar-me de um momento para o outro,
não seria nem o primeiro nem o último. Para sobremesa
quero fruta, um pêssego, não, talvez uma laranja, se for doce.
Ah!, tenho de falar ao editor, saber como vai a minha antologia,
talvez haja boas notícias, acho que está a ler-se mais outra vez,
já baixou a febre da informática e dos audiovisuais,
o que é que andará o Hugo a fazer, estou preocupado com ele,
a minha filha ficou de telefonar e o mais velho há dias que não diz nada,
não deve estar a precisar de mim, se não já tinha aparecido.
Os filhos são óptimos quando são pequenos, é bom vê-los crescer
mas o que eu não daria para tê-los de novo crianças,
aqueles olhos vivos, as palavras deformadas por excessos de ternura,
um café, se faz favor, não é preciso açúcar.
Os filhos, os filhos, que pensarão eles de mim daqui a trinta anos?,
possivelmente qualquer coisa semelhante ao que eu penso hoje do meu pai,
se fosse assim não era mau, melhor, era até justo, tenho sido um bom pai,
adoçante também não, muito obrigado. Não sei
por que é que esta gente faz tanto barulho, deviam estar todos mais magros,
conversam mais do dobro do que comem. Não, não,
fico-lhe muito agradecido mas não gosto de jogar na lotaria,
sorte é coisa com a qual nunca pude contar muito,
como diz o outro, tenho subido a corda a pulso.
A conta, por favor! Tenho tanta coisa para fazer esta tarde,
provavelmente guardarei para amanhã alguma coisa do que posso fazer hoje,
serei cliente de mim mesmo, tratar-me-ei com toda a deferência
e simpatia – uma factura, por favor! – isso, com muita simpatia,
arranjarei forma de ser simpático comigo mesmo,
ando cansado de gastar a minha simpatia com os outros.
Acho que mereço um bocadinho mais do que me têm dado,
ou talvez seja eu que dê demasiado por aquilo que me oferecem,
não sei, francamente não sei, não é o sítio nem tenho tempo para pensar nisso agora,
por que é que o tipo leva tanto tempo a trazer-me a factura?,
só faltava agora o telefone! ah, és tu!, não, quero dizer, sim,
não me demoro, já falamos nisso, não decidas nada sem eu chegar!,
é isto, também tenho que decidir com os outros e às vezes pelos outros,
estas coisas são mais difíceis do que parecem, a minha mulher
diz que passo o tempo em reuniões, que rico emprego,
não se faz mais nada a não ser umas reuniõezinhas, assim também eu, diz ela,
mas ela sabe lá o tamanho dos sapos que eu tenho de engolir,
agora por isso, olhe, por favor, falta a factura, já estou atrasado,
mas atrasado para quê, os meus grandes problemas não se resolvem hoje,
há coisas que esperam por nós uma vida inteira,
nós levamos uma vida inteira a esperar por certas coisas,
melhor seria eu hoje não ir a lugar nenhum – ah, a factura, obrigado! –
sinceramente não sei que faça, vou andando, já penso nisso,
preciso é de dar descanso à minha cabeça,
vim eu almoçar sozinho para não ouvir falar de problemas,
afinal aí estão os meus, gaita!, misturar problemas com filetes,
não há coração ou fígado que aguentem!, e mesmo sem interesse
não há nada como uma tagarelice à mesa
embora a minha mãe sempre me dissesse e insistisse,
Joaquim, eu já te disse que não se fala à refeição.

Joaquim Pessoa

Vou-me Embora de Mim,
Lisboa, Hugin, 2000

Tu ensinaste-me a fazer uma casa. Joaquim Pessoa

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Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Joaquim Pessoa, in ‘Os Olhos de Isa’

Bastava-nos amar, Joaquim Pessoa

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Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.Respirar.

Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa