adeus, Eugénio de Andrade

Esferagrafica-Mandy-Disher-Foto-04

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou
não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas
estremeciam só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

Anúncios

One thought on “adeus, Eugénio de Andrade

  1. ADEUS
    José Régio

    Vai-te, que os meus abraços te magoaram,
    E o meu amor não beija!, arde e devora.
    Foram-se as flores do meu jardim. Ficaram
    Raízes enterradas, braços de fora…

    Vai-te! O luar é para os outros; e os afagos
    São para os outros…, os que ensaiam serenatas.
    Já a lua que nos lagos bóia pérolas e pratas
    Não nasce para mim, que estou sem lagos.

    Quando me nasce, é como um reluzir da treva,
    Um riso da escuridão
    Que na minh’alma ecoa, e que ma leva
    Por lonjuras de frio e solidão…

    Vai-te, como vão todos; e contentes, de libertos
    Do peso de eu lhes não queres trautear mentiras.
    Como serias tu, flébil flor de olhos de safiras,
    Que me acompanharias nos desertos?

    Vai-te! não me supliques que te minta!
    Beijo-te os pés pelo que me oferecias.
    Mas teu amor, e tu, e eu, e quanto eu sinta,
    Que somos nós mais do que fantasias?

    Sim, amor meu: em mim, teu amor era doce.
    Premir na minha mão a concha nácar do teu seio
    Era-me um bem suave enleio…
    Era… – se o fosse.

    Vai-te!, que eu fui chamado a conquistar
    Os mundos que há nos fundos do meu nada.
    Talvez depois reaprenda a inocência de amar…
    Talvez… mas ai!, depois de que alvorada?

    Porque até Lá, é longe; e é tão incerto,
    Tão frio, tão sublime, tão abstracto, tão medonho…
    Como dar-te a sonhar este sonho dum sonho?

    – Vai-te! a tua casa é perto.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s