Autor: LN

Musa, sinceramente. José Miguel Silva

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.

Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,

aguados humoristas e outros promotores

da realidade? Eu sei que não identificas real

com verdadeiro, nem sequer com existente,

mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,

por brilhante que seja, neste mundo de gritos,

de sementes apagadas em lameiros de cimento?

Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste

falar da impermeabilização dos solos na cidade

de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?

Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te

capaz de competir com traficantes de desejos,

decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um

desempregado, de excitar um espírito impotente?

Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo

Quaresma, proteger do frio as andorinhas,

transportar as crianças à escola? Se achas que sim,

faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.

Mas não contes comigo pra te levar à praia.

Sabes perfeitamente que detesto areia, sol

na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.

Pela parte que me toca, ficamos por aqui.

 

José Miguel Silva

Sombras. Manuel de Freitas

Iluminar o mundo – com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz.

 

Manuel de Freitas, Ubi Sunt, Lisboa: Averno, 2014

VI. A. M. Pires Cabral

E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.
Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
– e eu a defendê-lo a golpes de riso.
Como o melro, tal e qual.
A. M. Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º 11,
Lisboa, Averno, Novembro de 2008
(foto daqui)

A dois passos. Rui Caeiro.

Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso – esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno – estava-se bem.
————-
Rui Caeiro, “Do inferno – cinco aproximações”
in Telhados de Vidro n.12,
Lisboa: Averno, Maio 2009

Não me mostres nenhum norte. A. M. Pires Cabral

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.
Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.
Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.
A. M. Pires Cabral, Cobra-d’água,
Lisboa: Cotovia, 2011

Metáfora. Gastão Cruz

Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia
A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo
Gastão Cruz

vita brevis. Vasco Graça Moura

a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,

é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou

pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,

nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.

Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997

trazido daqui