Autor: LN

Autodefinição. Óscar Niemeyer

Na folha branca de papel faço o meu risco.

Retas e curvas entrelaçadas.

E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.

São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.

Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,

os encantos da mulher.

Deixo de lado o sonho que sonhava.

A miséria do mundo me revolta.

Quero pouco, muito pouco, quase nada.

A arquitetura que faço não importa.

O que eu quero é a pobreza superada,

a vida mais feliz, a pátria mais amada.

 

Óscar Niemeyer

Bem no Fundo. Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminski

Poema de agradecimento à corja. Joaquim Pessoa

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

imagem aqui

… e se alguém, por acaso , te disser
que aqui não há poesia,
dá-lhe o teu sorriso mais branco
e empresta-lhe os teus olhos.

 

Emanuel Jorge Botelho

Godot, em Balbucio, Antes de Entrar em Cena. Emanuel Jorge Botelho

para Antero de Quental
quando eu já cá não estiver
para gostar das coisas a que dei um nome
quem lhes dirá que o meu estava dentro delas
como uma folha de tília
desenhada no frio de uma ardósia?
que fique, pelo menos,
na badana de cada noite,
o lume de as ter comigo
e o risco, rubro,
de uma lágrima.
Emanuel Jorge Botelho, edições Averno, Outubro de 2017

Testamento Vital. Emanuel Jorge Botelho

estou tão cansado de andar a ir morrendo,
à espera que o tempo saia do meu nome.
—————-
trepar paredes não é risco a que dê gasto de alma,
e não tenho caligrafia
para cancelar o endereço.
—————-
ponho uma faca entre os dentes?
masco tília?
ou desenho a primeira sílaba de uma asa?
—————-
não faço nada.
não sou capaz de trair a minha morte.
—————-
Emanuel Jorge Botelho (Fecho as cortinas e espero)

Notícias do cerco. Emanuel Jorge Botelho

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois.
—————-
é tudo uma questão de senha.
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã.
—————-
é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso
de um golpe de Lua cheia.
—————-
Emanuel Jorge Botelho (Fecho as cortinas, e espero)

Fidelidade. Jorge de Sena

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena

Aurora. Adolfo Casais Monteiro


A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.

Adolfo Casais Monteiro,
Poesias completas, 1993.

O viandante. Carlos de Oliveira

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

 

Carlos de Oliveira

Coisas pintadas. Constantino Cavafy

Por meu trabalho zelo, e a ele quero bem.
Mas a lentidão da composição hoje me desanima.
O dia influiu sobre mim. Seu aspecto
torna-se continuamente sombrio. Sem cessar venta e chove. Mais desejo olhar que falar.
Nesta pintura vejo agora
um belo rapaz que, perto da fonte,
se estendeu, depois de ter-se cansado talvez de correr.
Que belo menino! Que divino meio-dia
já o arrebatou para adormecê-lo! –
Fico a olhar assim por muito tempo.
E, dentro da arte novamente, descanso de sua labuta.

Constantinos Caváfis

trazido daqui

Poeta. Manuel Alegre

Quando um homem se põe a caminhar
deixa um pouco de si pelo caminho.
Vai inteiro ao partir repartido ao chegar.
O resto fica sempre no caminho
quando um homem se põe a caminhar.
Fica sempre no caminho um recordar
fica sempre no caminho um pouco mais
do que tinha ao partir do que tem ao chegar.
Fica um homem que não volta nunca mais
quando um homem se põe a caminhar
Vão-se  os rios sem margem para o mar.
Ai rio da memória: só imagens.
O mais é só um verde recordar
é um ficar (sem as levar) nas verdes margens
quando um homem se põe a caminhar.
Manuel Alegre, Um barco para Ítaca

O futuro. Ary dos Santos

Isto vai meus amigos isto vai

um passo atrás são sempre dois em frente

e um povo verdadeiro não se trai

não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai

o que é preciso é ter sempre presente

que o presente é um tempo que se vai

e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança

que é verde como a cor que tem a esperança

quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança

se fizermos de maio a nossa lança

isto vai meus amigos isto vai.

 

Ary dos santos

o sangue das palavras 1979

Um melro no tempo. Luís Filipe Parrado

Negro, anónimo, bravio,

demora-se por uns segundos apenas

(em voo é mais difícil de captar)

Na cerca de ferro forjado

Do jardim público.

Eu escuto-o, fico em suspenso. E confesso

que, lidos os mapas astrais

e os melhores tratados

de ornitologia,

continuo às cegas,

sem compreender porque me comove

tanto este assobio dilacerante.

Consegues ouvi-lo?

Sim. Canta como se tudo estivesse

no seu lugar, como se este

fosse o primeiro de todos os dias do mundo,

como se nada de mal nunca nos pudesse acontecer.

 

Luis Filipe Parrado

(Nervo – colectivo de poesia / 4, Janeiro/Abril 2019)

melro aqui

Mas que memória? Alberto Pimenta

mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.

Alberto Pimenta
Imitação de Ovídio, & etc, Lisboa, 2006.

Palavras fundamentais. Nicolás Guillén


Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais, e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e, se o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.

Nicolás Guillén

(Tradução de Albano Martins)

Destino. Mia Couto

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto

Em cima da minha mesa. José Régio

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza –
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo…)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retracto, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora…
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!…
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós…)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa…
Três maços – e nada leves! –
Atados com um retrós…

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta…)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.

José Régio

Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano. Mário Cesariny

 no país no país no país onde os homens

são só até ao joelho

e o joelho que bom é só até à ilharga

conto os meus dias tangerinas brancas

e vejo a noite Cadillac obsceno

a rondar os meus dias tangerinas brancas

para um passeio na estrada Cadillac obsceno

 

e no país no país e no país país

onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço

e o pescoço que bom é só até ao artelho

ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,

chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,

recordo os meus amores liames indestrutíveis

e vejo uma panóplia cidadã do mundo

a dormir nos meus braços liames indestrutíveis

para que eu escreva com ela, só até à ilharga,

a grande história de amor só até ao pescoço

 

e no pais no pais que engraçado no pais

onde o poeta o poeta é só até à plume

e a plume que bom é só até ao fantasma

ao passo que o fantasma – ora ai está –

não é outro senão a divina criança (prometida)

uso os meus olhos grandes bons e abertos

e vejo a noite (on ne passe pas)

 

diz que grandeza de alma. Honestos porque.

Calafetagem por motivo de obras.

É relativamente queda de água

e já agora há muito não é doutra maneira

no pais onde os homens são só até ao joelho

e o joelho que bom está tão barato

 

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação

 

Branco e Vermelho. Camilo Pessanha

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso…
Que delícia sem fim!

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana…
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.

Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror…
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor…

E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.

Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa…
Tudo vermelho em flor…

 

Camilo Pessanha, Clepsidra

Amor à vista. Manuel Alegre

A mulher que não há começa em ti
Começa em ti a sempre tão ausente
A sempre tão distante e tão aqui
Tão doente da partida e tão presente.
Começa em ti a sempre incomeçada
A que por nunca ser nunca perdi
A que era amor do amor: corpo de nada.
A mulher que não há começa em ti.
Começa em ti um tempo em que ajoelho
Tempo de amar ou templo: terra e mar.
Meus olhos deslumbrados com Açores
À vista: eu que sou Gonçalo Velho
Vivendo a glória extrema de chegar
Às tuas ilhas que direi de amores.
Manuel Alegre

Junto à água. Manuel António Pina

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

 

Manuel António Pina, Um sítio onde pousar a cabeça

Segredo. José Agostinho Baptista

É este o meu segredo –
fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

Sem mover os dedos,
sem abrir os lábios,
irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se
apaga,
à beira de um rio negro,
quando o coração pára.
Serei apenas um homem sem nome,
caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade
que devora a sua luz.

Não quero ser mais nada.
Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro
me perdi.

 

José Agostinho Baptista, Quatro Luas

Epitáfio para um centauro. Iosif Brodskii

Dizer que foi um infeliz é dizer de mais
ou de menos, depende de quem esteja a escutar.
No entanto, o cheiro que exalava era um tanto de mais,
e o seu trote era também algo difícil de acompanhar.
Dizia: Queria apenas um monumento, mas algo acabou por se extraviar:
– o útero, a linha de montagem, a economia?
Ou então a guerra é que nunca aconteceu, confraternizaram com o inimigo
e deixaram-no ficar assim, provavelmente para retratar
a Intransigência, a Incompatibilidade – esse tipo de coisas que provam
não tanto a nossa singularidade ou virtude, mas a probabilidade.
Durante anos vagueou por olivais, tal uma nuvem,
maravilhando-se com esse entes unipernetas, pais da imobilidade.
Aprendeu a mentir a si próprio, do que fez uma arte,
à falta de melhor companhia, e também para testar a sua sanidade.
E morreu relativamente jovem – porque a parte
animal mostrou-se menos capaz de durar que a sua humanidade.

Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Livros Cotovia, 2001

Eu sei, não te conheço, mas existes. Joaquim Pessoa

Eu sei, não te conheço, mas existes.
Por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas nada, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos sobre a tua
nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras
docemente,
lentamente,
desesperadamente,
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim, que é em mim que devo
procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti
que eu amo.

 

Joaquim Pessoa, 125 Poemas. Litexa Editora, 1990

Panorama. Jannah Loontjes

A noite paira sobre a cidade

imóvel como numa fotografia,

um filtro de crepúsculo lilás

granula o panorama,

entranha-o como

folhas de chá

em água a ferver

e descolora a vida

como algo

numa velha fotografia polaróide

que mais tarde

quando espero esquecer

me irá recordar

flâmulas de paixão

nas quais o teu nome ondula

como um cachecol perdido

em dias tímidos de inverno.

Jannah Loontjes
(de Varianten van nu, 2002)

Trazido daqui

Arte privada. Luís Quintais

Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso
como se de uma arte privada se tratasse.

A ti, a quem falo de poesia, a ti
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo,
que não há que compreender,
porque nada nos condena à fala
antes que as palavras aconteçam.

Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho
e nunca terminado: um princípio de verão,
a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas.
A rua de dia de semana
e o arquipélago da solidão despertando
para as poucas coisas que procuro
e que o poema irá entretecer
se entretecer. –
A virtude que, cega,
vai conhecendo o seu caminho.

Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,
e se ficamos tristes não era para ficarmos,
pois não existem momentos irrepetíveis.
Eles aninham-se no sangue
e voltam a mergulhar-nos na experiência:
um dia de verão, um bosque, colinas
onde a serpente de alcatrão se enrola.
A ausência de tráfego como motivo.

A pouco e pouco vou recuperando a gravura.
Agora sei que havia uma ave sobre as colinas,
pois há sempre uma ave, ou a sombra dela,
nos meus poemas. Que havia água,
o cheiro das inusitadas chuvas
pela manhã de Junho.

O rumor da imagem colado aos dedos.
O ocre escuro das areias espalhado na mesa
é um símbolo da infância,
mas não o reconheço ainda.
O poema é uma enumeração que não teve lugar,
que nunca terá. Eu, à beira do fracasso,
não o reconheço ainda.

Enquanto isso tem lugar em mim o advento
do que me define,
e o barro de que sou feito coze por dentro.

 

Luís Quintais, Imprecisa Melancolia, Editorial Teorema, 1995

Precipício. Luís Quintais

As imagens gastas de tão lidas
e os sofisticados lugares comuns da poesia
colam-se-te à pele – pelo incómodo trajo do bom senso
e do bom gosto que repudias.
Vil chegada do que amaste, e que agora recordas.A poesia faz-se contra o esquecimento?
Melhor seria dizer, contra a memória se faz a poesia.

sem a arruinada ponte não há precipício?
O que conta é o precipício além da arruinada ponte.

 

Luís Quintais, Angst, Livros Cotovia, 2002

XXVIII. Luís Quintais

Ligar o mundo por um istmo,
um canal de sangue e virtude. Ligar o mundo pela fronteira incendiada,
destruída até ao raso chão. Escutar. Rente ao chão depositar o rosto,
depois seguir caminho, como quem do chãopede um segredo, uma verdade
num corpo e numa alma, como nos disse o vidente.

Assim deposito o rosto nesse chão
e escuto atentamente a anónima violência,

o metálico som da cidade.

 

Luís Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro, Livros Cotovia, 2010

Transatlântico. Iosif Brodskii

Os últimos vinte anos foram bons praticamente para toda a gente
menos para os mortos. Mas talvez também para eles.
Talvez o Todo-Poderoso-em-Pessoa se tenha tornado um tanto burguês
e use cartão de crédito. Pois doutra maneira a passagem do tempo
não faz sentido. Daí as recordações, as memórias,
os valores, as maneiras de sociedade. Esperamos não termos
gasto a mãe ou o pai ou ambos, ou uma mão cheia de amigos até ao
último, pelo facto de deixarem de nos povoar os sonhos. Os sonhos,
ao contrário da cidade, despovoam-se
à medida que envelhecemos. Por isso é que o eterno descanso
oblitera a análise. Os últimos vinte anos foram bons
praticamente para toda a gente e constituíram
a vida no outro mundo para os mortos. A qualidade dessa vida podia ser
questionada mas não a duração. Os mortos, supõe-se, não se
importariam de conseguir o estatuto de sem-abrigo e dormir em passagens
pedonais, ou de ficar a ver os submarinos grávidos regressarem
ao curral onde nasceram no fim duma viagem à volta do mundo
sem destruírem vida na terra, sem terem
sequer um pavilhão decente para içarem.
——-

O mar é longe. Pedro Tamen

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

 

Pedro Tamen

Passou por nós este tempo todo. Helder Moura Pereira

Passou por nós este tempo todo, a coisa
ridícula do estão-a-tocar-a-nossa-canção
desaba sobre nós como um trovão.
Passa-nos uma coisa pela cabeça e
lá vamos nós de cabeça meter-nos
na boca do lobo, atirar ao próprio pé,
meter um golo na própria baliza.

Mesmo ao ler duas linhas muito belas,
com a sombra do candeeiro a dar-lhe em cheio,
a breve palavra dos seus lábios era outra.
A simples música dos seus lábios era outra.
Essas linhas já não tinham, por assim dizer,
lógica nenhuma. E eu, tonto, lá ia.

A coisa é de tal forma que ainda hoje
lá vou, a esse rodeio de mistérios repetidos,
força magnética e fatal, onde foste buscar
tanto sangue para meter nas veias?
Que, grossas, despontam sobre a ira
das mãos assanhadas e assim te atraem.

Uma dança parada de costas duras, fasquia
dobrável com truque de mão, alguma coisa
me prende aqui, quem sabe se nesta casa
não descobri, sem querer, o eixo da terra,
o equador de uma alma relativamente pobre.

 

Helder Moura Pereira
Segredos do Reino Animal, Assírio & Alvim, 2007

Enfado. Jannah Loontjes

Como uma ligadura de gesso

o tempo enrolou-se à volta das

minhas pernas,

nada vejo à minha volta

ou parece que tudo desapareceu.

Amanhã e ontem colocam-me

as mesmas questões

hoje dobra-se entre

o papel empoeirado

de um pesado livro enfadonho

em cima da secretária,

aonde me sento

e sento.
Jannah Loontjes
(de Varianten van nu, 2002)

Trazido daqui

Traseiras. Jannah Loontjes

Abro a porta, entro na varanda. Noite.

Nos quintais vestígios de pombos. Neve

que jaz ao acaso. Um gato sob um arbusto

sacode o pêlo, embosca uma sombra.

A lua descansa sobre um telhado. Cortada por vozes

que cantam. Al Jazeera.

Roupa enregelada pendurada num silêncio de morte.

A camada branca ocupa tudo sem vergonha, faz amizade

com ombreiras pálidas, grades de varandas, antenas parabólicas.

Também eu pertenço aqui. Sozinha. Porém,

rodeada de gente e animais.

Porém e porém. Isto é tão inverno, tão noite

como uma noite de inverno. Aspiro. Cheiro. Lixo.

Humidade. Cozinha. Pêlo de gato.

Jannah Loontjes
(de Dat ben jij toch, 2013)

Trazido daqui

Também. Jannah Loontjes

Mãos inexistentes segurando coisa nenhuma

zero graus talvez existam,

contudo. O leite também azeda

com a trovoada. Os vulcões têm nomes

permanentes, mesmo se não expelem lava.

O mesmo nome não promete que

sejamos semelhantes. Água e fantasmas

conseguem atravessar muitas coisas.

Consegues ver através de nada? Os fantasmas

vivem, sim e não. Ausente é quando estás

não estando. Às vezes sinto a tua ausência

mesmo estando tu presente. Às vezes estás

sem seres aquele de quem sinto a falta.

Nem todas as nuvens têm um nome.

 

Jannah Loontjes (de Dat ben jij toch, 2013)

Trazido daqui

Clamor. Al Berto

tudo vem ao chamamento
noite após noite o que dissemos e
o que nunca diremos — a viagem
com uma giesta de algodão presa nos cabelos e
a sensação fresca de um sulco de aves na pele

tudo vem ao chamamento — os lobos
os anões as fadas as putas as bichas e
a redenção dos maus momentos — enquanto te barbeias

vês no espelho o homem
cuja solidão atravessou quase cinco décadas e
está agora ali a olhar-te — queixando-se da tosse
da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez
num deslize perto da asa do nariz

não sei quem é — sei porém que vai afogar-se
naquela superfície clara quando dela se afastar e
abrir a porta para sair de casa murmurando: tudo
vem ao chamamento
por dentro do clamor da noite

Al Berto

Conselhos a um amigo. Boris Vian

Amigo se queres
Ser poeta
Sobretudo não armes
Em imbecil
Não escrevas
Canções demasiado estúpidas
Mesmo que as grunhas
Gostem

Não ponhas
O acessório idiota
Nem o sombrero
do México
Não ponhas
O perfume escaldante
Nem o alcatraz
Exótico

Põe flores
E alguns beijos
Ternamente depostos
Nos seus lábios
Põe notas
Em bonito ramo
E depois canta-as
No teu coração

Boris Vian, in “Canções e Poemas”
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins

Canção de Charme. Boris Vian

Querida vem junto de mim
Esta noite quero cantar
Uma canção para ti

Uma canção sem lágrimas
Uma canção ligeira
Uma canção de charme

O charme das manhãs
Envolvidas em bruma
Em que valsam coelhos

O charme dos pântanos
Onde alegres crianças louras
Pescam crocodilos

O charme dos prados
Que se ceifam no Verão
Para podermos rebolar-nos

O charme das colheres
Que rapam os pratos
E a sopa de olhos claros

O charme do ovo cozido
Que permitiu a Colombo
O truque mais luzido

O charme das virtudes
Que dão ao pecado
O gosto do proibido

Podia ter-te cantado
Uma canção de carvalho
De ulmeiro ou de choupo

Uma canção de plátano
Uma canção de teca
De rimas mais duráveis

Mas sem ruído nem alarme
Preferi experimentar
Esta canção de charme

Charme do velho notário
Que no estúdio austero
Denuncia o falsário

Ou o charme da chuva
Escorrendo gotas de ouro
Sobre o cobre do leito

Charme do teu coração
Que vejo junto ao meu
Quando penso no bem-estar

Ou o charme dos sóis
Que giram sempre em volta
De horizontes vermelhos

E o charme dos dias
Apagados da nossa vida
Pela goma das noites

Boris Vian, in “Canções e Poemas”

Se os poetas fossem menos patetas. Boris Vian

Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda a gente feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves
De mirliflautas e lizores
De melfiarufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão
Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas
Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como ela sob os dedos

Mas os poetas são uns patetas
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois

Boris Vian, in “Não Queria Patear”
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins

Eu não quero ser velha sozinha. Maria do Rosário Pedreira

Vamos ser velhos ao sol nos degraus

da casa; abrir a porta empenada de

tantos invernos e ver o frio soçobrar

no carvão das ruas; espreitar a horta

que o vizinho anda a tricotar e o vento

lhe desmancha de pirraça; deixar a

 

chaleira negra em redor do fogão para

um chá que nunca sabemos quando

será – porque a vida dos velhos é curta,

mas imensa; dizer as mesmas coisas

muitas vezes – por sermos velhos e por

serem verdade. Eu não quero ser velha

 

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que

sejas velho com mais ninguém. Vamos

ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não

atravesses a rua por uma sombra amiga,

trago-te o chá e um chapéu quando voltar.

 

Maria do Rosário Pedreira