Categoria: Ruy Belo

Oh as casas as casas as casas. Ruy Belo

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Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

Elas morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

Respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Todos os Poemas

Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

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Segunda infância. Ruy Belo

 

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À tua palavra me acolho lá onde

o dia começa e o corpo nos renasce

Regresso recém-nascido ao teu regaço

minha mais funda infância meu paul

Voltam de novo as folhas para as árvores

e nunca as lágrimas deixaram os olhos

Nem houve céus forrados sobre as horas

nem míseras ideias de cotim

despovoaram alegres tardes de pássaros

O sol continua a ser o único

acontecimento importante da rua

Eu passo mas não peço às árvores

coração para além dos frutos

Tu és ainda o maior dos mares

e embrulho-me na voz com que desdobras

o inumerável número dos dias

BELO, Ruy, Obra Poética, vol. 1 [Aquele Grande Rio Eufrates], (1.ª Ed.)  – Presença, Lisboa, 1981

Missa de aniversário. Ruy Belo

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Há um ano que os teus gestos andam

ausentes da nossa freguesia

Tu que eras destes campos

onde de novo a seara amadurece

donde és hoje?

Que nome novo tens?

Haverá mais singular fim de semana

do que um sábado assim que nunca mais tem fim?

Que ocupação é agora a tua

que tens todo o tempo livre à tua frente?

Que passos te levarão atrás

do arrulhar da pomba em nossos céus?

Que te acontece que não mais fizeste anos

embora a mesa posta continue à tua espera

e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez

florido?

 

Era esta a voz dele assim é que falava

dizem agora as giestas desta sua terra

que o viram passar nos caminhos da infância

junto ao primeiro voo das perdizes

 

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos

onde deixaste a marca dos teus pés

Apenas na gravata. A tua morte

deixou de nos vestir completamente

No verão em que partiste bem me lembro

pensei coisas profundas

É de novo verão. Cada vez tens menos lugar

neste canto de nós donde anualmente

te havemos piedosamente de desenterrar

Até à morte da morte

 

Belo, Ruy, «Obra Poética de Ruy Belo — volume 1, livro “Aquele Grande Rio Eufrates”», Lisboa: Editorial Presença, 1981

Um dia não muito longe não muito perto. Ruy Belo

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Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?
Ruy Belo, in Homem de Palavra[s],
5.ª edição, introdução de Margarida Braga Neves, Junho de 1997, Editorial Presença, p. 83.

Algumas proposições com crianças. Ruy Belo

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A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, in ‘Homem de Palavra[s]’

Emprego e desemprego do poeta. Ruy Belo

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Deixai que em suas mãos cresça o poema

como o som do avião no céu sem nuvens

ou no surdo verão as manhãs de domingo

Não lhe digais que é mão-de-obra a mais

que o tempo não está para a poesia

 

Publicar versos em jornais que tiram milhares

talvez até alguns milhões de exemplares

haverá coisa que se lhe compare?

Grandes mulheres como semiramis

públia hortênsia de castro ou vitória colonna

todas aquelas que mais íntimo morreram

não fizeram tanto por se imortalizar

 

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício

chegar mesmo a fazer versos a pedido

versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria

quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor

Bem mais do que a harmonia entre os irmãos

o poeta em exercício é como azeite precioso derramado

na cabeça e na barba de aarão

 

Chorai profissionais da caridade

pelo pobre poeta aposentado

que já nem sabe onde ir buscar os versos

Abandonado pela poesia

oh como são compridos para ele os dias

nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

 

Ruy Belo

Em legítima defesa. Ruy Belo

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Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
são uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas, nos gestos, nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
Mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como me destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um persigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
Não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
com coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesses morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te posso encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais

Ruy Belo. Todos os poemas II. “Nau dos Corvos”. Assírio e Alvim (2004)
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