Mês: Fevereiro 2020

Naquele tempo. Pedro Tamen

Naquele tempo, viver era a melhor coisa do mundo.

Quando nascia o sol todas as pessoas viam

e os homens eram crianças para além dos montes.

Era uma planície, grande como convém a todas as planícies

E plana porque tudo estava certo.

Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais às ervas e às flores.

Tu,

tão perfeita que era impossível não seres,

tão erguida como um riso de andorinha,

tu estavas ao meu lado, naturalmente fresca,

e não havia motivos nem razões porque sabíamos tudo.

A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima

e ao deitarmo-nos na terra como folhas da mesma planta,

gratos, reduzidos, conscientes.

Olhando para cima, o céu abria-se e todos os Anjos vinham sentar-se no rebordo

e riam como nós pequenas gargalhadas.

Eu cantava canções mais belas do que não tendo palavras

e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos exactamente como a todos os sons.

Pedro Tamen, Os Dias em Tábua das Matérias

Diz-se que os anjos voam. Carlos de Oliveira

Diz-se que os anjos voam
doutro modo; leves;
que não levam peso
quando partem:
a nossa miséria já filtrada,
a sua misericórdia imponderável;
flutuam; pairam; vogam:
verbos de pouca densidade;
cânones vigiaram
o crescimento das asas
nas pinturas heréticas;
concílios redigiram normas
a impor asas mais breves:
para que voem; ut volent;
basta a sua essência aérea;
e assim, nenhum anjo sofreu
as leis reais do nosso peso; nem pôde,

por isso, conhecer-nos.

Carlos de Oliveira, Entre Duas Memórias

Por mais que nos doa a vida. Carlos de Oliveira

Por mais que nos doa a vida
nunca se perca a esperança;
a falta de confiança
só da morte é conhecida.
Se a lágrimas for cumprida
a sorte, sentindo-a bem,
vereis que todo o mal vem
achar remédio na vida.
E pois que outro preço tem
depois do mal a bonança,
nunca se perca a esperança
enquanto a morte não vem.

 

Carlos de Oliveira, Poesias

Gare. António Feijó

O comboio perdeu-se no negrume

da noite e da distância.

A leva dos emigrantes

– num sonho de riqueza

e na esperança de vida –

enchera o monstro.

Na gare, choros e gritos!

Namoradas perdidas,

mães velhinhas

E os amigos,

numa espécie de inveja dolorida,

por não poderem partir.

Na gare a dor em cada face!

E só eu

– que não era um emigrante –

só eu tive um sorriso de mulher

pedindo que voltasse

Álvaro Feijó em Os Poemas de Álvaro Feijó

Sílabas. António Ramos Rosa

Sílabas.

O álcool de Dezembro é frio e rouco.

O cigarro amarga. É um cigarro clínico.

Sílabas.

Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.

Uma colher é uma forma complexa

familiar e deliciosa.

Um copo é nítido

como um criado sem servilismo.

Uma mulher condensa-se

no olhar do poeta.

Um corpo. Duas sílabas.

O dinheiro à justa. A gola da gabardina

para tapar a nuca

e os ouvidos.

Sílabas.

 

António Ramos Rosa

de Viagem Através de Uma Nebulosa em Obra Poética Vol. I

Se eu fosse a ti amava-me. Juan Vicente Piqueras

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.
Juan Vicente Piqueras