Musa, sinceramente. José Miguel Silva

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.

Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,

aguados humoristas e outros promotores

da realidade? Eu sei que não identificas real

com verdadeiro, nem sequer com existente,

mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,

por brilhante que seja, neste mundo de gritos,

de sementes apagadas em lameiros de cimento?

Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste

falar da impermeabilização dos solos na cidade

de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?

Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te

capaz de competir com traficantes de desejos,

decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um

desempregado, de excitar um espírito impotente?

Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo

Quaresma, proteger do frio as andorinhas,

transportar as crianças à escola? Se achas que sim,

faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.

Mas não contes comigo pra te levar à praia.

Sabes perfeitamente que detesto areia, sol

na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.

Pela parte que me toca, ficamos por aqui.

 

José Miguel Silva

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