Mês: Outubro 2019

Estação de metro. Manuel António Pina

A minha juventude passou e eu não estava lá.
Pensava em outra coisa, olhava noutra direcção.
Os melhores anos da minha vida perdidos por distracção!

Rosalinda, a das róseas coxas, onde está?
Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão?
Provavelmente professoras de Alemão
em colégios fora do tempo e do espa

ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia
amado de um amor imprudente e impudente,
como num sujo sonho adolescente
de que alguém, no outro dia, acordaria.

Pois tudo era memória, acontecia
há muitos anos, e quem se lembrava
era também memória que passava,
um rosto que entre os outros rostos se perdia.

Agora, vista daqui, da recordação,
a minha vida é uma multidão
onde, não sei quem, em vão procuro
o meu rosto, pétala dum ramo húmido, escuro.

 

Pathos: Pequena Antologia Quase Inédita de Poesia Contemporânea Portuguesa.

Gailivro, Porto, 2006.

Teoria das cordas. Manuel António Pina

Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste na alma),
no fundo da alma, e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.

Atropelamento e Fuga, Asa, Porto, 2001.

(imagem Christian Schloe, Wonderland)

Apensar. Carlos Bessa

Eu vou pensar. Ah, estúpido.
Pensar, não se pensa em português.
Em francês, sim. Ou, quem sabe,
em alemão. De resto,
pensar é bom se houver
um pouco de Ricoeur, Derrida
ou será de angina de peito?

Está bem, não penso.
Cito-te. Dou-te a mão.
Afinal, tu é que sabes,
que orientas,
que espalhas a vaidade
e a razão.

Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

(imagem Jeannette Woitzik aqui)

Vista para um pátio. José Miguel Silva

Cai um sino do pinheiro de natal.

Por muito menos se foge de casa

de seus pais. Agachados sob o leque

das hortênsias, descobrimos que as lágrimas

são fáceis de engolir. Sem saber,

já chegamos ao escuro.

Só nos falta pôr o til na palavra solidão.

 

josé miguel silva

vista para um pátio seguido de desordem

relógio d´água, 2003

Outras coisas. Manuel António Pina

Outras coisas  no entanto

o amor e o desamor e também a

morte que nas coisas morre subitamente

o lugar onde vais de súbito

De súbito faltas-me debaixo dos pés

e noutros lugares  De ti é possível dizer

que te ausentaste para parte incerta

deixando tudo no teu lugar

Está tudo na mesma  Também a mim

tempo não me falta lugar sim

Onde cairás morta, flor da infância?

De súbito faltam-me as palavras

manuel antónio pina