Mês: Agosto 2019

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um. José Luís Peixoto

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

 

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

 

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

 

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

 

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis (2008)

trazido daqui

imagem aqui

Os Ombros Suportam o Mundo. Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

 

Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo, 1940

A leitora. António Ramos Rosa

A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

António Ramos Rosa, in “Volante Verde”

Joseph Lorusso

Leilão de jardim. Cecília Meireles

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)

Cecília Meireles

jardim

Não dissemos as palavras mais simples. António Ramos Rosa

Não dissemos as palavras mais simples

a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra

 —————————  vacila verde

as árvores despertam dormem apertadas na concavidade

 —————————  do rumor

não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte

o trêmulo deslumbramento da água jorrando lisa de terra

não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore

 —————————  de clara malha como um leopardo

não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes

as altas e negras flores nas varandas suspensas

não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo

as manhãs a meia-noite o turbilhão

do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro

onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre

 —————————  o mar vertical.

António Ramos Rosa, in Gravitações

quint-buchholz-book-lighthouse-1992

Books are door-shaped. Margarita Engle

Books are door-shaped
portals
carrying me
across oceans
and centuries,
helping me feel
less alone.
But my mother believes
that girls who read too much
are unladylike
and ugly,
so my father’s books are locked
in a clear glass cabinet. I gaze
at enticing covers
and mysterious titles,
but I am rarely permitted
to touch
the enchantment
of words.
Poems.
Stories.
Plays.
All are forbidden.
Girls are not supposed to think,
but as soon as my eager mind
begins to race, free thoughts
rush in
to replace
the trapped ones.
I imagine distant times
and faraway places.
Ghosts.
Vampires.
Ancient warriors.
Fantasy moves into
the tangled maze
of lonely confusion.
Secretly, I open
an invisible book in my mind,
and I step
through its magical door-shape
into a universe
of dangerous villains
and breathtaking heroes.
Many of the heroes are men
and boys, but some are girls
so tall
strong
and clever
that they rescue other children
from monsters.
Margarita Engle
Quint Buchholz, “Sommerwind”

Phenomenal Woman. Maya Angelou


Pretty women wonder where my secret lies.

I’m not cute or built to suit a fashion model’s size
But when I start to tell them,
They think I’m telling lies.
I say,
It’s in the reach of my arms
The span of my hips,
The stride of my step,
The curl of my lips.
I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That’s me.

I walk into a room
Just as cool as you please,
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.
I say,
It’s the fire in my eyes,
And the flash of my teeth,
The swing in my waist,
And the joy in my feet.
I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That’s me.

Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much

But they can’t touch
My inner mystery.
When I try to show them
They say they still can’t see.
I say,
It’s in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That’s me.
Now you understand
Just why my head’s not bowed.
I don’t shout or jump about
Or have to talk real loud.
When you see me passing
It ought to make you proud.
I say,
It’s in the click of my heels,
The bend of my hair,
the palm of my hand,
The need of my care,
‘Cause I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That’s me.

Maya Angelou