Mês: Agosto 2018

O vento. A.M. Pires Cabral

É fácil dizer que o vento

tem gatos na voz

enfurecidos.

 

Que afaga e despenteia,

traz a chuva.

 

Que levanta as telhas,

exercita na noite

os nossos mais pesados

pesadelos.

 

É fácil ser poeta

à custa do vento.

 

Fingir que não sabemos

que o vento não é senão

o vazio que muda de lugar.

A.M. Pires Cabral, in Arado, ed. Cotovia

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No planeta inamistoso. A.M.Pires Cabral

No planeta inamistoso,
de aridez sem fim,
a morte declarada
da parte menos estável,
menos dócil de mim.

 

Igualado silêncio com ruído.
Unido o tempo
pelas extremidades.

 

Aprendo porém que a mesma serra
que me segreda as leis universais
também segrega pedra

 

e com outra mão
esculpe catedrais.

 

A. M. Pires Cabral

Defeito de Fabrico. A.M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

A. M. Pires Cabral, in ‘Cobra-d’Água’

assim me habituei a morrer sem ti. Al Berto

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto

Não sei. Eugénio de Andrade


Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.

É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.

Eu sei:tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal.Paciência,
querido, também Mozart morreu.

Só a morte é imortal.

Eugénio de Andrade

The Road Not Taken. Robert Frost

Two roads diverged Ina yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had wom them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever combo back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost

A estrada que não foi seguida

Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava,
Quando se perdia entre os arbustos;

Depois tomei a outra, igualmente bela
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,

E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos
E duvidava se alguma vez lá voltaria.

É com um suspiro que agora conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu —
Eu segui pela menos viajada
E isso fez a diferença toda

 

Tradução José Alberto Oliveira, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

Foto de Toni Schneiders (1920-2006)