Imagens. Ana Luísa Amaral

f32c11e750103c3214aa781d5db431dc.jpg

Estragas-me a paz.
E eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.
*
* *
Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
pôr aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.
*
* *
Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais,
e que se chove corra a apanhar-te,
não te vás desbotar ou romper,

ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.
*
* *
Mas é que não és tu:
sou eu que ando estragada:
as minhas solidões não as preciso

e a minha paz, coitada,
já teve a mesma sorte
que os bocados mentais de que falava

no verso três
da página anterior.

 

Ana Luísa Amaral

in Coisas de partir, Lisboa, Gótica, 2001

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s