Núpcias. Nuno Júdice

20170515_124049.jpg
Uma inquietação de pólen suspende
o voo da abelha. Capturo-a com
os dedos da alma, e ouço-a zumbir
na minha cabeça, num limiar de
memórias que fazem parte de um verão
carregado de amêndoas e alfarroba.Veio depois o zangão com o seu canto
áspero; e entreguei-lhe esse corpo
deitado na minha mão, queimado
pelo sol do meio-dia. Assim, entre
os declives da terra e os corais
do olhar, esqueci um presságio de azul.

Ter-me-iam confundido com um antigo
profeta, desses que pedem a esmola
de uma certeza em cada canto da
vida; ou pedir-me-iam o nome
de cada um deles para completar
os livros de frases inaudíveis como

as vozes apagadas pelo vento, como
esse murmúrio nascido num eco
de travesseiro, como o desejo gritado
no instante do naufrágio: e
em vão lhes confessei ter perdido
todos os sonhos, e nada ter para lhes dar.

Por vezes, digo, este pólen branco
que sobra nas corolas secas do inverno
serve de alimento aos famintos de amor:
e vejo-os partirem pelos campos, em busca
de imagens, deixando atrás deles
uma penumbra carregada de sentimentos.

Nuno Júdice
Eufeme, n.º 1, edição de Sérgio Ninguém, s. l., 2016.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s