Mês: Janeiro 2018

Voz numa pedra. Mário Cesariny

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Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do mênstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe a cidade futura
onde “a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela”
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
“a machadada e o propósito de não sacrificar-se não constituirão ao sol coisa nenhuma”
nada está escrito afinal

Mário Cesariny
[Modo de usar]

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The stranger song. Rui Pires Cabral

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Ele quis dizer-te agarra
a noite e não pudeste
contentá-lo. Agora
é tarde. Cai uma nódoa
na parede, na camisa

do poema. És acossado
pelo fim que consentiste
e pela sombra da razão
que não tiveste. Olhas
em volta

e só não vês o que aí está
se não quiseres perder de vez
a ilusão de uma saída.
Nos arredores, a luz
é torpe, o verso

inquina. Não há
comboio a estas horas
que te leve ao outro lado
onde te espera, por engano,
a tua vida.

Rui Pires Cabral
A mil braças de profundidade, AA. VV., Eclusa, Lisboa, 2016.

Não sei. Alberto Pimenta

 

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Poéticos, os deuses?
Eles não têm sangue.

Debaixo do céu inerte,
a ave que foi trespassada
e cai como um trapo
no tronco de árvore de Botticelli
tinha sangue.
Ou a pantera
do Jardin des Plantes
que incansavelmente
percorre a sua jaula
de um lado para o outro,
cerrando lentamente as pálpebras
sobre o mundo, tem sangue.

Ou as três gotas de sangue na neve
que causam o assombro
abismado de Parsifal
têm origem viva, que se torna poética
quando chegam a ele.

A poesia
são gotas, inúmeras,
secas ou ainda frescas,
sangue, sempre sangue,
o preço líquido
que a vida paga
pela fuga constante
a si mesma,
a caminho
do que não existia
antes de
ela lá ter chegado.

A poesia
quer que cheguemos,
aonde ela chegou.

– E chegamos?

Claro que não.

– E os deuses?

Esses incutem
pavor e esperança:
pavor na vida que temos,
feita do pó do universo,
esperança em chegar a eles
depois dela.

– E chegamos?

Não sei. A qual deles?
Alberto Pimenta
Nove fabulo, o mea voz: De novo falo, a meia voz, Pianola, Lisboa, 2016.

Núpcias. Nuno Júdice

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Uma inquietação de pólen suspende
o voo da abelha. Capturo-a com
os dedos da alma, e ouço-a zumbir
na minha cabeça, num limiar de
memórias que fazem parte de um verão
carregado de amêndoas e alfarroba.Veio depois o zangão com o seu canto
áspero; e entreguei-lhe esse corpo
deitado na minha mão, queimado
pelo sol do meio-dia. Assim, entre
os declives da terra e os corais
do olhar, esqueci um presságio de azul.

Ter-me-iam confundido com um antigo
profeta, desses que pedem a esmola
de uma certeza em cada canto da
vida; ou pedir-me-iam o nome
de cada um deles para completar
os livros de frases inaudíveis como

as vozes apagadas pelo vento, como
esse murmúrio nascido num eco
de travesseiro, como o desejo gritado
no instante do naufrágio: e
em vão lhes confessei ter perdido
todos os sonhos, e nada ter para lhes dar.

Por vezes, digo, este pólen branco
que sobra nas corolas secas do inverno
serve de alimento aos famintos de amor:
e vejo-os partirem pelos campos, em busca
de imagens, deixando atrás deles
uma penumbra carregada de sentimentos.

Nuno Júdice
Eufeme, n.º 1, edição de Sérgio Ninguém, s. l., 2016.

A propósito. António Quadros Ferro

praia.jpgNão sabes ainda, poeta

que o poema empurra com a espada

que o poema empurra com a barriga?

É aragem a escuridão que sopras

e sonho o que na vertigem bocejas cansado

a poesia que empurras e empurras.

Quem nos dera, não era? Um poema

do repouso que varresse sem sangue

todas as misérias do horizonte

como folhas verdes as palavras.

Mas num qualquer outro instante este cortejo

também será esquecido, 65 vezes esquecido

segundo um determinado consenso.

Pois (porém) vamos juntos,

sim, amorosos do martírio dos outros,

são assim os poetas, talvez, empurrados.

Mas para onde e em nome de quem?

 

antónio quadros ferro

voo rasante

antologia de poesia contemporânea

mariposa azual

2015

trazido de Canal de Poesia

Mudança de Idade. Mia Couto

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Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

Mia Couto in Tradutor de Chuvas, 2011

O Amor e o Tempo. António Feijó

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Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!

António Feijó , (1859 -1917) , in ‘Sol de Inverno’