Mês: Julho 2017

Ode à mentira. Jorge de Sena

IMG_8678.JPG

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças, 
como sereis cruéis, como sereis injustas? 
Quem torturais, quem perseguis, 
quem esmagais vilmente em ferros que inventais, 
apenas sendo vosso gemeria as dores 
que ansiosamente ao vosso medo lembram 
e ao vosso coração cardíaco constrangem. 
Quem de vós morre, quem de por vós a vida 
lhe vai sendo sugada a cada canto 
dos gestos e palavras, nas esquinas 
das ruas e dos montes e dos mares 
da terra que marcais, matriculais, comprais, 
vendeis, hipotecais, regais a sangue, 
esses e os outros, que, de olhar à escuta 
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos, 
vos contemplam como coisas óbvias, 
fatais a vós que não a quem matais, 
esses e os outros todos… – como sereis cruéis, 
como sereis injustas, como sereis tão falsas? 
Ferocidade, falsidade, injúria 
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso 
o coração que apavorado em vós soluça 
a raiva ansiosa de esmagar as pedras 
dessa encosta abrupta que desceis. 
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo. 
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos? 
Descereis, descereis sempre, descereis. 

Jorge de Sena

Instruções para uma criada de mesa. Yehuda Amichai

IMG_5809.JPG

Não levantes os copos e os pratos
da mesa. Não esfregues
a nódoa da toalha. É bom sabê-lo:
antes de mim houve aqui gente.

Compro sapatos que andaram nos pés de outro.
(O meu amigo tem as suas próprias ideias.)
O meu amor é a mulher de outro homem.
A minha noite é tomada pelos sonhos.
As gotas de chuva são pintadas na minha janela,
nas margens do meus livros há anotações de outros.
No projecto da casa em que quero viver
o arquitecto desenhou estranhos junto à porta de entrada.
Na minha cama há uma almofada
com o espaço vazio de uma cabeça que já se foi.

Por Yehuda Amichai

 

Plano de evasão. Rui Pires Cabral

IMG_20170401_095912.jpg

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

Por Rui Pires Cabral

Hapiness. Desanka Maksimovic

 

IMG_5812

Hours no are no longer my measure of time,

nor is the Sun’s fervent pace;

Day is when his eyes meet mine,

night is when they newly egress.

 

My joy is not measured by laughter,

nor whether his yearning is fainter than my,

joy is our mutual silence in sore,

when with the same beat our hearts cry.

 

I am not sorry that down the river of life

a drop of my existence will also slide,

may youth and all depart now,

greatly admiring me he stopped beside.

 

Desanka Maksimovic

 

Regresso. Manuel Alegre

img_5807.jpg

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Manuel Alegre

Liberdade. Sérgio Godinho

IMG_20170401_095654.jpg

Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se ataca na torrente

e a sede de uma espera só se ataca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela calada

só se pode querer tudo quanto não se teve nada

só se quer a vida cheia quem teve vida parada

só se quer a vida cheia quem teve vida parada

 

Só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão

habitação

saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir. 

 

 

Sérgio Godinho

O poema original. Ary dos Santos

IMG_7867.JPG

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos