Month: Junho 2017

Canção da Jónia. Constantino Cavafy

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Porque lhes quebrámos as estátuas,
porque os expulsámos dos seus templos,
não morreram, não, os deuses.
A ti, terra da Jónia, ainda eles amam,
e em suas almas sempre te recordam.
Quando a manhã de Agosto é alvorada em ti,
passa em teu ar um ardor dos deuses vivos;
e às vezes uma etérea forma juvenil,
indefinida, em trânsito subtil,
teus montes sobrevoa.

Constantino Cavafy

Liberdade. Sérgio Godinho

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Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se ataca na torrente

e a sede de uma espera só se ataca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela calada

só se pode querer tudo quanto não se teve nada

só se quer a vida cheia quem teve vida parada

só se quer a vida cheia quem teve vida parada

 

Só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão

habitação

saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir. 

 

Sérgio Godinho

Recusa das imagens evidentes. Natália Correia

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Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à baínha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia

Letra para um hino. Manuel Alegre.

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É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.

É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar.Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

 

Um mover d’olhos brando e piadoso. Luís de Camões

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Um mover d’olhos brando e piadoso,
Sem ver de quê ; um sorriso brando e honesto,
quási forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

Um desejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ũa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo gracioso;

Um escolhido ousar; ũa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.

Luís de Camões

Esplendor na relva. Ruy Belo

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Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]

Nocturno. David Mourão-Ferreira

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Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy….
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança…

David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

Ando pelas ruas desta incerta cidade. Graça Pires.

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Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.
Graça Pires
Uma claridade que cega
[foto jardim de Camões, Leiria]

Sinais. Alice Queiroz

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Assim corria o tempo
Nem sol nem chuva
Bucólico pardacento
Porém ousado ele apareceu
Vestindo roupagem festiva
Desafiou o tempo e a vida
E no maior deslumbramento 
Coloriu de luz o firmamento
Quero mesmo acreditar
Que nos fitamos longamente 
Alma na alma íris com íris
No mais profundo do olhar
Depois com perplexidade
Dei conta que ele estava lá 
Mas só pela metade
Nunca tinha visto nada assim
Um arco-íris mutilado
Que deixou algures metade dos vitrais
Ali especado a olhar para mim
Ah como a vida nos mostra os sinais
Estou tal qual o arco-íris na realidade
E ele Amigo veio apenas lembrar-me
Que terei de lutar pela outra metade
Alice Queiroz
[foto entrada Portas do Sol, Santarém]

Das palavras. Alice Queiroz

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Das palavras
de algumas palavras
temos de conhecer mais
que seu significado,
temos de lhes sentir o tacto
o gosto, ouvir a voz,
temos de as provar
beber, comer, saborear
mastigar suavemente
e depois com ternura,
as engolir para que permaneçam
guardadas em nós.
Amor! O que é amor
se não for vivido!
“Jardim de Afectos”
[foto centro histórico de Santarém]

 

Regret. Jon Loomis

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Elvis won’t eat. He’s twenty years old. Mostly he sleeps,
staggers off to the litter-box, drags himself aback–

fur like a thrift-store suit, rumpled, bagged at the knees.
You’ve been avoiding the trip to the vet–the news will be bad.

For Christ’s sake, your wife says, on the third day.
I can’t stand it. So you grab an old sweater, wrap up

the shivering cat, put sweater and cat in a cardboard box.
He hates the car, still has enough chi left to yowl the whole way–

he knows where he’s going, knows he’s not coming back.
The office is bright, toxic with Lysol, sharp funk of animal fear.

You hold the box on your lap. Elvis papoosed in your sweater,
panting, eyes dull. Whatever love is, it’s not what you feel

for this cat–sprayer, shredder of chairs, backhanded gift
from a breakup–your ex moved in with her girlfriend,

no pets allowed. Two seats down a woman shushes
her mutt: it yaps at the end of its leash. Then it’s your turn.

Good night, old boy, the vet says. The needle slips in.
Elvis sighs, his flat skull in your hand. He purrs for a second

or two and then stops. You can’t love what you don’t love;
you try to be kind. But the sweater is Brooks Brothers,

cashmere. You’ve had it since grad school–it’s black,
and still fits. Not really thinking, you lift the dead cat,

unwrap the sweater, lay the lank purse of bones
back in its box. You leave him there at the vet’s-

no little backyard service for you. You drive home.
Your wife says, That’s it? and you nod.

There’s not much that keeps you awake anymore:
the future all rumor and smoke, a bus that never comes

until it comes–the past already published, out of your hands.
So what do you do with it, then? Shoved into the closet,

moth-reamed, way in the back. Crouched in its dark corner:
the thing that still fits. The thing you can’t throw away.

Jon Loomis

(Foto IP7, perto de Portalegre)

Ética. Luis Quintais

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Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
Luís Quintais
in «Lamento», 1999

Humanity I Love You. E.E.Cummings

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Humanity i love you
because you would rather black the boots of
success than enquire whose soul dangles from his
watch-chain which would be embarrassing for both

parties and because you
unflinchingly applaud all
songs containing the words country home and
mother when sung at the old howard

Humanity i love you because
when you’re hard up you pawn your
intelligence to buy a drink and when
you’re flush pride keeps

you from the pawn shop and
because you are continually committing
nuisances but more
especially in your own house

Humanity i love you because you
are perpetually putting the secret of
life in your pants and forgetting
it’s there and sitting down

on it
and because you are
forever making poems in the lap
of death Humanity

i hate you

 

E.E. Cummings

Song of the Open Road. Walt Whitman

the open road

17

Allons! the road is before us!
It is safe—I have tried it—my own feet have tried it well.

Allons! be not detain’d!
Let the paper remain on the desk unwritten, and the book on the shelf unopen’d!
Let the tools remain in the workshop! let the money remain unearn’d!
Let the school stand! mind not the cry of the teacher!
Let the preacher preach in his pulpit! let the lawyer plead in the court, and the judge expound the law.

Mon enfant! I give you my hand!
I give you my love, more precious than money,
I give you myself, before preaching or law;
Will you give me yourself? will you come travel with me?
Shall we stick by each other as long as we live?

Walt Whitman