Mês: Maio 2017

To make a prairie. Emily Dickinson

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To make a prairie it takes a clover and one bee,
One clover, and a bee.
And revery.
The revery alone will do,
If bees are few.

 

Emily Dickinson

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A flor da solidão. Ruy Belo.

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Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos

 

Ruy Belo

Dancemos no mundo. Sérgio Godinho

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Isto é como tudo
não há-de ser nada
a minha namorada
é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira
Separam-nos cordas
separam-nos credos e
creio que medos e
creio que leis nos colam
à pele papéisTratados,
acordos são pântanos, lodos
Pisemos a pista é bom
que se insista dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Por ódio passado (que seja maldito)
amor favorito não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes
separam-nos cores
a noite é de horrores
quem disse que é lindo o sol-posto
de um dia findo

Sozinho adormeço
E em teu corpo apareço
Pisemos a pista é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos levantando o pó
dançar como amigo só

Em passos tão simples
trocar endereços
num mundo de acessos
ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas
separam-nos fatas
pai-nossos e datas
e excomunhões
acondicionando paixões

Acenda-se a tua luz na minha rua
Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Sérgio Godinho

(foto: em frente à Sé de Lisboa)

Gosto-te. Joaquim Pessoa.

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Gosto-te. E desta certeza se abre a manhã como uma

imensa rosa de desejo indestrutível. O futuro é o pró-
ximo minuto, o que está para além da infatigável religi-
ão dos meus versos, em cuja luz me acendo, feliz e nu.

O meu sorriso conhece a bondade dos animais, o po-
der frágil das corolas, e repete o nome feminino dos ar-
canjos de peitos redondos, perfumados pelas giestas
das veredas do céu.

Gosto-te. Amarrado pelos meus braços de beduíno do
sol, pobre senhor dos desertos, profeta da distância
que há dentro das palavras, onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla da mais inquieta
serenidade.

Gosto-te. E tenho sido feliz por nunca ter seguido os
trilhos que me quiseram destinar. Aqui e ali me pergun-
to, despudoradamente. E sei que não sei mentir. É por
isso, que recolho na face a luz imprescindível ao orgu-
lho dos peixes e dos frutos.

Gosto-te. “Na-na-na, na-ô… Na-na-na, na-ô… na nô”,
canta o espírito do caminho, canta para mim e canta pa-
ra ti, eleva o coração das árvores grandes, coração de
coragem e de sangue fresco e verde, apaixonado e do-
ce, de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe” é agora uma palavra húmida, grá-
vida de água, onde os sinos da erva tocam para convocar
o imenso amor das sílabas. E, ao procurar-te, tremo ape-
nas de ternura, para que nem mesmo a inteligente brisa
da tarde possa dar pela minha presença.
Mais discreto que isto é impossível.

Joaquim Pessoa

Canção de primavera. José Régio

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Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio…
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar…
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio

O grito. Manuel António Pina

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Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

Manuel António Pina

 

 

 

 

 

Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim.

Sol de mendigo. Manuel da Fonseca

 

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Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira…

Pela manhã acorda tonto de luz
vai ao povoado e grita:
– Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios rosnam:
– Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o chão
dorme, dorme….

Manuel da Fonseca