Mês: Novembro 2016

Não sei quantas almas tenho. Fernando Pessoa

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Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

O guardador de rebanhos. Alberto Caeiro.

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Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa).

Interpretation of a Poem by Frost.

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A young black girl stopped by the woods,
so young she knew only one man: Jim Crow
but she wasn’t allowed to call him Mister.
The woods were his and she respected his boundaries
even in the absences of fence.
Of course she delighted in the filling up
of his woods, she so accustomed to emptiness,
to being taken at face value.
This face, her face eternally the brown
of declining autumn, watches snow inter the grass,
cling to bark making it seem indecisive
about race preference, a fast-to-melt idealism.
With the grass covered, black and white are the only options,
polarity is the only reality; corners aren’t neutral
but are on edge.
She shakes off snow, defiance wasted
on the limited audience of horse.
The snow does not hypnotize her as it wants to,
as the blond sun does in making too many prefer daylight.
She has promises to keep,
the promise that she bear Jim no bastards,
the promise that she ride the horse only as long
as it is willing to accept riders,
the promise that she bear Jim no bastards,
the promise to her face that it not be mistaken as shadow,
and miles to go, more than the distance from Africa to Andover
more than the distance from black to white
before she sleeps with Jim.

Thylias Moss, 1954

What Shines Does Not Always Need To. Adam Clay

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Because today we did not leave this world,
We now embody a prominence within it,
Even amidst its indifference to our actions,
Whether they be noiseless or not.
After all, nonsense is its own type of silence,
Lasting as long as the snow on your
Tongue. You wonder why each evening
Must be filled with a turning away, eyes to the lines
Of the hardwood floor as if to regret the lack
Of movement in a single day, our callous hope
For another wish put to bed with the others in a slow
Single-file line. I used to be amazed at the weight
An ant could carry. I used to be surprised by
Survival. But now I know the mind can carry
Itself to the infinite power. Like the way snow
Covers trauma to the land below it, we only
Believe the narrative of what the eye can see.

Do not go gentle into that good night. Dylan Thomas

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Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas, 19141953

Súplica. Miguel Torga

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Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…

Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

Paraíso. David Mourão-Ferreira

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Deixa ficar comigo a madrugada,

para que a luz do Sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

deita sumo de lua e de laranja.

 

Arranja uma pianola, um disco, um posto,

onde eu ouça o estertor de uma gaivota…

Crepite, em derredor, o mar de Agosto…

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

 

Depois, podes partir. Só te aconselho

que acendas, para tudo ser perfeito,

à cabeceira a luz do teu joelho,

entre os lençóis o lume do teu peito…

 

Podes partir. De nada mais preciso

para a minha ilusão do Paraíso.

 

David Mourão-Ferreira

Paraíso In “Infinito Pessoal”