Mês: Julho 2016

The Place Where We Are Right. Yehuda Amichai

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From the place where we are right
Flowers will never grow
In the spring.

The place where we are right
Is hard and trampled
Like a yard.

But doubts and loves
Dig up the world
Like a mole, a plow.
And a whisper will be heard in the place
Where the ruined
House once stood.

Yehuda Amichai

Um Homem e a Sua Vida. Yehuda Amichai

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Um Homem e a Sua Vida
(poema para tempos escassos)

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.

Yehuda Amichai

Palavras, actos. Gonçalo M. Tavares

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A ironia ensina a sabotar uma frase

Como se faz a um motor de automóvel:

Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres

No verbo ou numa letra do substantivo

A frase trágica torna-se divertida,

E a divertida, trágica.

Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,

Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar

A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo

Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita

Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida

Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero

Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.

Gonçalo M. Tavares,

a faca não corta o fogo. Herberto Helder

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a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?

eu sim queria,

jogando linho com dedos, conjugando

onde os verbos não conjugam,

no mundo há poucos fenómenos do fogo,

água há pouca,

mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,

mais brotada, inerente, incalculável,

e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,

e a abre e fecha,

é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,

porque no mundo há pouco fogo a cortar

e a água cortada é pouca,

¡que língua,

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,

e que pouca, incrível, muita,

e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,

que despropósito, que língua língua,

é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!

queria-a toda

 

Herberto Helder, in A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, pp. 66-67, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2008.

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias. Daniel Jonas

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Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

chegaríamos a iguais resultados

pelo que de nada adianta imaginar um almagesto

ou tabelas de paralaxe para isto

a que convencionalmente chamamos amor,

nem calcular o ângulo

entre nós e o centro da terra,

de nada nos aproveitara, tu e eu

centros escorraçados de irregular gravitação.
Porém, isso não me impediu de ver plêiades

cada vez que surgias (só

não te dizia nada) plêiades iluminando

meu Hades

com suas cabrinhas coruscantes

pascendo

o vale da sombra da morte.
E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?

quando o melancólico transístor

destila também outras perguntas, mas nenhuma

tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência

a subir em tubos estreitos

ao contrário do mercúrio?

Isto é view-master e são coisas que faço

na tua ausência.

 

Daniel Jonas

Os fantasmas inquilinos, Livros Cotovia, 2005